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domingo, 26 de maio de 2019

ORAÇÃO CONVERSA DE FILHO PARA COM O PAI


                                  ORAÇÃO CONVERSA DE FILHO PARA COM O PAI
A oração deve ser encarada como um santo momento de intimidade de um filho com o seu Pai.
Em vários momentos no decorrer da sua vida e ministério terrestre, Jesus foi ao lugar secreto para orar e a sua oração estava carregada de sinceridade e não de formalidade, por isso é intimidade.
Jesus sabia com quem Ele estava falando, ou seja, para quem Ele estava se dirigindo e quem recebia as suas orações:
Ele estava falando com o Pai, por exemplo, o evangelho de Jesus segundo escreveu João diz: “Tendo dito essas palavras aos seus discípulos, Jesus levantou seus olhos para o céu e orou: ‘Pai, é chegada a hora” (17.1). E até mesmo quando, no sermão da montanha, Jesus nos ensina a orar, Ele disse: “Por essa razão, vós orareis: Pai nosso, que estás nos céus” (Mateus 6.9). Jesus tinha consciência quem Deus era Nele e quem Ele era em Deus, Jesus sabia com quem estava falando.
Nós também devemos primeiramente saber com quem estamos falando, pois antes de ser nosso o Senhor, Deus é o nosso Pai: “Mas a todos quantos o receberam (Jesus), deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus, ou seja, aos que creem no seu Nome” (João 1.12). Quando você está orando, você está falando com o Pai.

Orar com sinceridade

Portanto, se estamos conversando com o nosso Pai, a oração precisa ser sincera, pois Ele tudo vê. Jesus foi sincero todas as vezes que falou com o Pai, por exemplo: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice” (Lucas 22.42), pois era esse o sentimento do coração de Jesus naquele momento e Ele expressou com liberdade diante do Pai. Fale com o Pai com liberdade.

Orar sem vãs repetições

A oração é também objeto de adoração a Deus, pois através das palavras o adoramos e declaramos o nosso amor por Ele e não deve motivada de vãs repetições porque é a oportunidade de transformar os sentimentos do coração em palavras ao Pai:
“E, quando orardes, não useis de vãs repetições, como fazem os pagãos, pois imaginavam que devido ao seu muito falar serão ouvidos”. (Mateus 6.7).
Os pagãos (aqueles que não passaram pelo batismo, também chamados de “gentios”) tentavam sensibilizar seus deuses com repetições para conseguir favores, mas com o Pai não precisa e nem deve funcionar assim. Ele sabe de tudo o que nós precisamos, então é só expressar com liberdade, pois, como Jesus mesmo disse:
“se vós, sendo maus, sabeis dar bons presentes aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai que está nos céus dará o que é bom ao que lhe pedirem” (Mateus 7.11).

Orar é ter um Lugar Secreto aqui e Nele

Tenha um lugar secreto no Pai, mas também um lugar secreto para um tempo só com Ele. O Senhor Jesus orava no lugar secreto, por vezes vemos Ele se retirando para orar, para o lugar da intimidade –
“E, retirando-se, seguiu, como de costume, para o monte das Oliveiras, e os discípulos o acompanharam. Chegando ao lugar, Jesus lhes instruiu: ‘Orai, para que não venhais a cair em tentação’. Então, Ele se afastou deles à distância de um tiro de pedra, ajoelhou-se e começou a orar” (Lucas 22.39-41).
E Jesus mesmo disse algo similar num outro momento: “E quando orardes, não sejais como os hipócritas, pois que apreciam orar em pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem admirados pelos outros. Com toda a certeza vos afirmo que eles já receberam o seu galardão. Tu, porém, quando orares, vai para o teu quarto e, após ter fechado a porta, orarás a teu Pai que está em secreto, e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará plenamente. (Mateus 6.5-6).
O que Jesus estava dizendo não é que não se deveria orar nesses lugares públicos, pelo contrário, a oração pode ser feita em todos os momentos e em qualquer lugar, a oração parte do coração e com entendimento. O que nesse versículo ele está recriminando é a disposição do coração de alguns que colocavam-se na posição de “orar em pé nas sinagogas” para serem admirados e vistos por homens, já portanto recebendo suas recompensas. O fato de orar no secreto, que só o Pai que está em todos os lugares pode ver, é que só Ele recompensará devidamente.

Orar com a Motivação Correta

Mas ainda assim, o nosso Deus pode responder todas as orações certamente, porém não responderá o pedido feito em oração se esse for com a motivação errada e na certeza que eu ou você irá se perder porque Ele, o Pai, nos ama: “E quando pedis não recebeis, porquanto pedis com a motivação errada, simplesmente, para esbanjardes em vossos prazeres” (Tiago 4.3).
Contudo, todo aquele que é movido e cheio do Espírito Santo, que é coerente e bondoso, alcança a graça de ter seu pedido atendido: “Pedi, e vos será concedido, buscai e encontrareis, batei e a porta será aberta para vós. Pois todo o que pede recebe, o que busca encontra e a quem bate, se lhe abrirá. Ou qual dentre vós é o homem que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou se lhe pedir peixe, lhe entregará uma cobra?” (Mateus 7.7-11).

Orar é Interceder

Um dos alvos da oração deve ser a intercessão por todos: “Antes de tudo, recomendo que se façam suplicas, orações, intercessões e ações de graças, em favor de todas as pessoas, pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade, pois isto é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador” – 1ª Timóteo 2.1-3.
Jesus também intercedeu ao Pai pelo perdão daqueles que estavam o acusando e o matando (Lucas 23.34), bem como Estevão, primeiro mártir da Igreja no Novo Testamento, morto por seu amor e fé em Jesus, repetiu o seu ato na sua morte por apedrejamento anos mais tarde (Atos 7.60).

O Espírito Santo é o Nosso Intercessor

Romanos 8.26-27 – “Do mesmo modo, o Espírito nos auxilia em nossa fraqueza, porque não sabemos como orar, no entanto, o próprio Espírito intercede por nós com gemidos impossíveis de serem expressos por meio de palavras”. Uau! O Espírito Santo que em nós habita, nos ajuda na comunicação com Deus, quando as palavras humanas parecem não fazer sentido. Neste trecho, não é o crente quem geme, mas sim o Espírito Santo e aqui merece ser destacado.

Conclusão

Para encerrar esse artigo, uso das seguintes palavras do Reverendo Hernandes Dias Lopes extraídas de um sermão sobre oração ministrado por ele:
“Orar é conectar o altar com o trono, a fraqueza humana à onipotência divina. Orar é falar com aquele que está entronizado acima dos querubins e governa o universo. Não há nenhuma força mais poderosa na terra do que a oração, pois a palavra de Deus diz que muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo. Ana orou ao Senhor e tornou-se alegre mãe de filhos, inobstante ser estéril.Deus derrotou o poderoso exército da Assíria em resposta às orações do rei Ezequias. Esse mesmo rei foi curado de uma enfermidade mortal, em resposta ao seu clamor e às suas lágrimas. A oração aciona o braço do Onipotente!”.
Portanto, não perca essa rica oportunidade, o caminho da oração está aberto. Orar é falar com o Pai e qual filho não ama falar e ouvir a voz doce de um Pai de amor, não é verdade? Deus te abençoe.

Apóstolo. Capelão/Juiz. Mestre e Doutor em Ciências da Religião Dr. Edson Cavalcante 

sábado, 25 de maio de 2019

DIABO O PAI DA MENTIRA


                                                       DIABO O PAI DA MENTIRA
“Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira”. João 8:44
Quero dar ênfase na parte final desse texto: “… Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira.” 
Se satanás é pai da mentira, então, logicamente, a mentira é filha de Satanás. Por que um filho de Deus andaria com uma filha de satanás? Veja, a mentira é traiçoeira, infiel, enganadora e, mais cedo ou mais tarde, ela vai lhe derrubar se você não abandoná-la.
A mentira já destruiu casamentos, jovens, matou pessoas e fez com que muitos perdessem sua própria vida.
A mentira tem o DNA de satanás, enquanto a verdade tem o DNA de Deus.
A mentira é totalmente incompatível com os filhos de Deus. E, o próprio Deus abomina a mentira, principalmente no coração e na boca dos seus filhos.
Eu conheci pessoas que andavam tanto com a mentira que elas acabaram convivendo normalmente com ela. Essas pessoas mentiam sem naturalmente sem temor a Deus ou sem pensar nas consequências no seu futuro.
Muitos filhos de Deus pensam que suas mentiras são esquecidas diante do Senhor. (Salvo se houveram arrependimentos e deixaram a mentira). Uma das histórias bíblicas mais terríveis que vejo no Novo Testamento, na dispensação da Graça, é a história de Ananias e Safira. Eles mentiram para Pedro, porém o apóstolo lhe disse essas palavras:
“Conservando-o, porventura, não seria teu? E, vendido, não estaria em teu poder? Como, pois, assentaste no coração este desígnio? Não mentiste aos homens, mas a Deus.Ouvindo estas palavras, Ananias caiu e expirou (morreu), sobrevindo grande temor a todos os ouvintes”. (Atos 5:4-5)
Ananias tinha mentido ao Senhor durante o momento de entregar a sua oferta no culto. Porém, tudo começou com omissão. No oculto, sem ninguém saber, até que veio à tona.
Por favor, me entenda, meu intuito aqui não é condenar você, mas abrir os seus olhos para deixar a mentira.
Quantas pessoas estão mentindo para Deus nas suas finanças?
Quantas retém parte do seu Dízimo e das ofertas que o Espírito Santo as guiou a dar? Depois que Ananias morreu, sua mulher chega no mesmo culto, três horas depois do ocorrido, e Pedro faz uma pergunta a ela dando a oportunidade para falar a verdade:
“Quase três horas depois, entrou a mulher de Ananias, não sabendo o que ocorrera. Então, Pedro, dirigindo-se a ela, perguntou-lhe: Dize-me, vendestes por tanto aquela terra? Ela respondeu: Sim, por tanto. Tornou-lhe Pedro: Por que entrastes em acordo para tentar o Espírito do Senhor? Eis aí à porta os pés dos que sepultaram o teu marido, e eles também te levarão. No mesmo instante, caiu ela aos pés de Pedro e expirou. Entrando os moços, acharam-na morta e, levando-a, sepultaram-na junto do marido”. (Atos 5.7-10)
Safira, esposa de Ananias, também mentiu. E morreu por compactuar com a mentira do seu marido.
Esposas, nunca concorde com as mentiras do seu marido, sua vida estará em risco assim como a dele. Semelhantemente o marido, nunca concorde com a mentira da sua esposa.
Destaquei apenas um exemplo de muitos que existem em toda a Bíblia sobre os perigos da mentira. O apóstolo João diz:
“Não vos escrevi porque não saibais a verdade; antes, porque a sabeis, e porque mentira alguma jamais procede da verdade”. (I João 2.21)
Viva uma vida na verdade e não na mentira. Pois a mentira te levará à falência, a pobreza, a destruição e até a morte. Somente um filho de Deus que não considera a palavra do Senhor e a sua presença dentro dele teria “coragem” de mentir contra o Espírito Santo que habita dentro dele.
“Por isso, deixando a mentira, fale cada um a verdade com o seu próximo, porque somos membros uns dos outros”. Efésios 4:25.
Apóstolo. Capelão/Juiz. Mestre e Doutor em Ciências da Religião Dr. Edson Cavalcante

sexta-feira, 24 de maio de 2019

GRANDE É DEUS


                                                               GRANDE É DEUS
“12 Quem na concha de sua mão mediu as águas e tomou a medida dos céus a palmos? Quem recolheu na terça parte de um efa o pó da terra e pesou os montes em romana e os outeiros em balança de precisão?
13 Quem guiou o Espírito do SENHOR? Ou, como seu conselheiro, o ensinou?
14 Com quem tomou ele conselho, para que lhe desse compreensão? Quem o instruiu na vereda do juízo, e lhe ensinou sabedoria, e lhe mostrou o caminho de entendimento?” (Isaías 40.12-14)

“Quem mediu?”. Depois de ter falado do cuidado amigável de Deus na defesa de seu povo, o profeta Isaías agora proclama seu poder, e confere-lhe todos os elogios possíveis, os quais, embora não produziriam menor impressão sobre nós, se não observássemos o objetivo do Profeta. À primeira vista, os leitores ignorantes acham que o Profeta multiplicou frases inacabadas, as quais seriam absurdas. Mas se olharmos para o seu objetivo, ele adorna o poder de Deus com um discurso oportuno e elegante, que é um verdadeiro apoio para a nossa fé, para que possamos não hesitar em crer que ele vai cumprir o que ele prometeu. Não é sem razão que Paulo diz que Abraão não hesitou, porque ele acreditava que Deus era capaz de realizar o que havia prometido (Rom 4.20,21). No mesmo sentido, também testifica de si mesmo, em outra passagem, “Eu sei em quem tenho crido; Deus é poderoso para guardar o meu depósito.” (2 Tim 1.12).
Esse é também o sentido dessas palavras de Cristo: “Meu Pai, que mas deu é maior do que tudo.” (João 10.29).

Assim, portanto, devemos continuamente lutar contra a desconfiança, e desde que Satanás nos ataca por vários artifícios, é de grande importância que as promessas de Deus devam ser consideradas por nós, para dar ao seu poder os louvores que merece. Agora, por causa da restauração do povo de Israel no cativeiro em Babilônia ser inacreditável, era necessário que as mentes piedosas fossem erguidas sobre o mundo, para que não vissem a graça de Deus como limitada a meios humanos.
Nós vemos que o profeta não se limita a ensinar que Deus é o Criador do céu e da terra, mas aplica ao presente assunto tudo o que se relaciona com o poder infinito de Deus; e numa forma como está fixada para a nossa orientação. Quando qualquer adversidade nos acontece, a nossa salvação fica escondida, e, como se uma nuvem tivesse vindo sobre nós, o poder de Deus fica oculto; somos tomados de espanto, como se o Senhor houvesse nos abandonado e nos esquecido. Vamos, portanto, não achar que o Profeta fala de algum assunto comum; pois se esta convicção do poder de Deus estiver profundamente enraizada em nossos corações, não ficaremos muito alarmados e nem seremos perturbados por qualquer calamidade que seja. Neste poder, como já dissemos, Abraão inclinou-se, para que pudesse cordialmente abraçar o que era de outra maneira incrível; e, consequentemente, Paulo afirma (Rom 4.18) que “ele esperava contra toda a esperança”, pois ele acreditava que Deus era capaz de fazer o que ele tinha dito, e não vacilou ou cambaleou em sua mente.
Somos, assim, ensinados a levantar os olhos acima deste mundo, para que não julguemos pelas aparências exteriores, mas acreditar que o que Deus falou se cumprirá; porque todas as coisas estão à sua disposição.
Embora esta convicção seja necessária a todos, eu disse que os judeus tinham grande necessidade dela; pois como foram fortemente oprimidos por inimigos muito poderosos, eles não tinham meios de escape e nenhuma esperança de libertação, e nada podia ser visto por todos os lados, senão um grande e terrível deserto. Em vão, portanto, seria a consolação a ser oferecida a eles, se não tivessem, por sugestão do Profeta, elevado suas mentes para o céu, e, ignorando as aparências das coisas, fixado todo o seu coração no poder de Deus.

Quando ele nomeia “medidas”, que são usadas por homens em pequenas coisas, ele acomodou a si mesmo à nossa ignorância; porque assim o Senhor frequentemente se comunica conosco, e faz comparações de assuntos que nos são familiares, quando ele fala de sua majestade; para que nossas mentes ignorantes e limitadas possam entender melhor a sua grandeza e excelência. Fora, pois, com todas as concepções grosseiras de Deus; porque sua grandeza excede em muito todas as criaturas, assim que o céu, e a terra, e o mar, e tudo o que eles contêm, embora sejam vastos em sua extensão, ainda, em relação a ele nada são.
“De quem tomou ele conselho?”. O Profeta expressa a mesma coisa de várias maneiras; para que saibamos que nada é mais tolo do que o homem, quando ele se aventura a elevar-se ao céu, examinar ou julgar por sua própria habilidade as obras de Deus. Nestas palavras, portanto, Isaías visa reprimir cada vez mais a insolência e a imprudência dos homens. Paulo cita esta prova para o mesmo fim, para nos impedir de julgar o inescrutável conselho de Deus; pois Deus não deseja que façamos uma inquirição a respeito de sua sabedoria, senão de uma forma sóbria e reverente (Romanos 11.34). Há uma diferença, que Paulo afirma que o mistério espiritual do evangelho não pode ser sondado pelo entendimento humano, enquanto que o profeta pronuncia uma afirmação, em termos gerais, sobre a providência de Deus. Mas em ambos os pontos devemos aprender a humildade, e trazer todos os nossos sentidos cativos à obediência. Toda a razão ou o entendimento que temos é mera escuridão, até que tenhamos sido iluminados por Cristo.
“Quem instruiu o Espírito do Senhor?”. O que o Profeta tinha anteriormente ensinado acerca da bondade e do poder do Senhor, ele acrescenta agora a respeito de sua sabedoria. E devemos observar a conexão; porque, como o senso carnal limita impiamente o poder de Deus aos meios humanos, por isso indevidamente submete seu conselho inescrutável a raciocínios humanos. Até que Deus seja exaltado acima de todas as criaturas, muitas dificuldades se apresentam para interromper o curso de suas operações; e, portanto, se formarmos um juízo de acordo com a nossa própria opinião, vários escrúpulos surgirão imediatamente. Assim, sempre que não vemos como Deus fará isso ou aquilo, duvidamos se isto se cumprirá; porque o que ultrapassa a nossa razão parece ser impossível. Por conseguinte, assim como devemos contrastar o poder de Deus com a nossa fraqueza, devemos também reprimir a nossa insolência por sua incomparável sabedoria.
Com a pergunta “quem guiou ou ensinou o Espírito de Deus”, ele quer dizer que Deus não tem necessidade de um professor, para lhe conduzir e ensinar acerca de coisas desconhecidas. Espírito aqui denota razão, bom senso ou compreensão; porque ele empresta uma comparação da natureza dos homens, para que possa acomodar-se mais plenamente a eles; e eu penso que isso não deve ser entendido como denotando o essencial Espírito de Deus.

Apóstolo. Capelão/Juiz. Mestre e Doutor em Ciências da Religião Dr. Edson Cavalcante

quinta-feira, 23 de maio de 2019

AS LÁGRIMAS DO APÓSTOLO PEDRO


                                            AS LÁGRIMAS DO APÓSTOLO PEDRO
“Então, voltando-se o Senhor, fixou os olhos em Pedro, e Pedro se lembrou da palavra do Senhor, como lhe dissera: Hoje, três vezes me negarás, antes de cantar o galo. Então, Pedro, saindo dali, chorou amargamente.” (Lucas 6.62.) 
“Então, Judas, o que o traiu, vendo que Jesus fora condenado, tocado de remorso, devolveu as trinta moedas de prata aos principais sacerdotes e aos anciãos, dizendo: Pequei, traindo sangue inocente. Eles, porém, responderam: Que nos importa? Isso é contigo.  Então, Judas, atirando para o santuário as moedas de prata, retirou-se e foi enforcar-se.” (Mateus 27.3-5.)

Relacionamentos saudáveis, não são relacionamentos recheados de lindas palavras de amor ou de manifestações, ostentadoras ultrapassando limites físicos, psicológicos, financeiros etc. etc. etc. Relacionamentos saudáveis são relacionamentos em que as pessoas são verdadeiramente valorizadas, não pelo que têm ou pelas situações que podem proporcionar por meio de suas beneficies peculiares.
Nós, seres humanos, somos dotados pelo intenso desejo de valorização, não gostamos de detectar sanguessugas pendurados em nós, uma das piores conclusões que chegamos é a que nos mostra, através de provas práticas, que as pessoas não estão a nosso redor porque nos amam, ou pelo bem estar de nossa presença, mas porque temos alguma coisa a oferecer, alguma condição melhor a proporcionar através de posses intelectuais, financeiras, políticas etc. etc. etc. Não gostamos de ser usados, mas… Gostamos de usar, muitas e não poucas vezes já estivemos ao lado de alguém não pelo que a pessoa era, mas pelo que ela nos ofereceu. Certa vez estive muito infeliz dentro de uma situação circunstancial, tinha um líder que, dentro da proposta bíblica de liderança, estava totalmente empenado, “era uma liderança ministerial”. Em um determinado momento detectei que era prezo àquela liderança não por amor, fidelidade, mas, sim, pelas minhas expectativas ministeriais futuras; me senti verdadeiramente mal quando conclui o raciocínio que nem sempre o que quero pra min é o que quero para os outros, “como quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles” (Lucas 6.31). Nesse momento resolvi ser honesto comigo mesmo e com meu antigo líder, deixando aquela caminhada, não porque me julgo bom, mas porque quis chorar o choro do arrependimento, e não me suicidar por consequencia do peso de consciência, um choro que graças a Deus me trouxe para o caminho certo, a dependência exclusiva de Deus.
A questão amor-interesse nos relacionamentos humanos é muito intensa, o principio é a honestidade, precisamos nos olhar sem mascaras, e reconhecer que muitas vezes e em muitas situações, já usamos as pessoas, criamos e arquitetamos colocando nossos “amigos” como peças de um jogo de xadrez, para podermos subir os degraus de nossa escalada ambiciosa, pelas beneficies do poder, porém como toda nuance obscura nas personalidades humanas pode ser corrigida ou intensificada, quando somos confrontados, e a essência que está no mais profundo de nosso ser é que vai definir o benefício ou malefício que a dor vai nos gerar… O mesmo sol que amolece o plástico, endurece o barro.
Ao direcionarmos nossos olhos para Palavra de Deus, vemos o exemplo claro dessa relação, interesse-confronto, correção-desastre. Na vida de Pedro e Judas, pois ambos cometeram um erro semelhante, negaram o Cristo vivo, tanto amado e admirado por ambos. Porém, no momento do confronto a essência de cada um definiu o seu destino. Pedro, após três negativas incisivas ao nome de Jesus, foi alcançado pelo olhar penetrante do Cristo, porém o texto diz que ele saiu e foi chorar amargamente. Judas ao ficar sabendo da condenação de Jesus, procurou seus comparsas na traição para se justificar. Após receber a negativa de sua autopiedade não conseguiu aliviar sua consciência pesada e foi suicidar-se. Há uma verdade explicita no suicídio, é a maior declaração de que não se pode suportar o peso do momento. Há também uma verdade explicita no choro, é a maior declaração de que reconheço e não justifico meu limite, mas não quero desistir de melhorar. Entretanto, se choraremos ou nos suicidaremos ante aos confrontos de nossos erros, será definido por nossa essência mais profunda.
Deus quer ser amado e não usado, Judas usou Jesus durante todo seu ministério, pois roubava a sacola. Pedro também usou a Cristo, pois o quis impedir de ir para cruz porque esperava a libertação do império Romano e nesse momento se assentar na cadeira de honra dos fieis escudeiros do Rei; porém quando ambos viram sua perversidade tiveram a oportunidade de buscar a cura ou a fuga. A história de Judas é finalizada com os anciãos alocando as moedas fora do templo… A história de Pedro vai além dele mesmo, pois após a noite de lágrimas surge um novo homem, já não mais um pescador intrépido, mas, sim, um Apóstolo para todos os tempos, que chama a nós que desejamos o arrependimento de: Sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus.
Não sei qual o seu conflito, mas sei que como eu você ainda não é perfeito. Porém, se amarmos ao SENHOR unicamente pelo que ele é, jamais viveremos sob as bases do remorso (sofrimento por perdas que os nossos erros nos geraram), mas viveremos pelas bases do arrependimento (sofrimento pela dor que nosso erro gerou naqueles que amamos) e assim seremos restaurados. A dor vai corrigir nosso caminho e não intensificar nossa perda.
Apóstolo. Capelão/Juiz. Mestre e Doutor em Ciências da Religião Dr. Edson Cavalcante

quarta-feira, 22 de maio de 2019

CURA E LIBERTAÇÃO


                                                         CURA E LIBERTAÇÃO
No contexto bíblico, ser curado significa o pleno restabelecimento da pessoa, resgate de sua dignidade de ser humano, superação dos males, reintegração na comunidade e no serviço a ela. É algo que transcende a vida presente e a projeta na vida eterna. Inspirados no cuidado de Jesus com os doentes e endemoninhados, os cristãos encontram o sentido profundo para a atenção aos doentes e à superação dos males.
Introdução
Sofrimento, abandono, doença, fome, violência, dependência de drogas, mortes são uma realidade nas notícias diárias. O avanço das ciências da saúde e da medicina, as políticas de prevenção de doenças somadas a projetos com recursos bem aplicados têm melhorado as condições de vida, o que é evidenciado com o aumento da longevidade e diminuição da taxa de mortalidade infantil.[1] Mas o problema do mal – incluindo as doenças e enfermidades – é mais complexo. Sua erradicação não depende somente de planos eficientes mais localizados: o mal em grande parte subsiste num sistema perverso de dominação que mantém os pobres reféns dos ricos e poderosos. É necessário converter também os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse na sociedade de hoje (cf. Paulo VI, exortação Evangelii Nuntiandi, n. 19), para que aconteça uma libertação integral do ser humano. Por causa do mal disseminado em estruturas injustas, muitos inocentes padecem.
As consequências são as variadas formas de sofrimento do povo, que se pergunta: “O que fizemos de errado para merecer isso?” E quando não veem saída, é comum as pessoas assim se expressarem: “Só por Deus mesmo para sair dessa situação”. Na Bíblia, a história do Jó paciente reflete o conformismo nas palavras: “Recebemos de Deus os bens, não deveríamos receber também os males?” (Jó 2,10). Jó é figura de tantas vítimas de hoje, que não têm a quem recorrer. Muitos se refugiam na religião, esperando uma cura miraculosa, buscam Jesus milagreiro e exorcista. Outros buscam explicação da origem do mal num princípio negativo, que compete com as forças do bem. Com isso, a responsabilidade do mal é descarregada sobre demônios ou espíritos do mal. O povo sofredor é uma grande parcela da sociedade doente que clama por socorro, saúde, libertação. Cura e libertação são temas correlatos. Vamos refletir com base na história do povo na Bíblia. Será uma abordagem teológica da temática. Na Bíblia, aparece o projeto de Deus no esforço do povo de se organizar e assumir a vida comunitária na prática da justiça e misericórdia em favor do oprimido, do órfão, da viúva, do pobre, privados de condições dignas de vida.
  1. Cura, libertação e salvação
Há uma relação estreita entre cura e libertação, salvação espiritual e saúde física. A salvação do ser humano em corpo e espírito abrange a existência na sua totalidade. O próprio termo latino “salus” significava originalmente saúde e salvação. Cristo é chamado o “Salvador”. E a doutrina da salvação é chamada “soteriologia”. Muito antes de Cristo, o médico Asclépio era chamado de “soter”, salvador (cf. SCHIAVO e DA SILVA, 2000, p. 13-14).
Entendemos que a saúde é bem-estar físico, espiritual e social. Cura não se refere somente a libertação de doenças, mas a promoção da vida, do bem-estar da pessoa, na sua integridade de corpo e espírito. Diante do drama do sofrimento, não basta o conforto espiritual de uma vida futura no céu sem dor. É necessário lutar com os meios disponíveis, para promover a vida. No entanto, a cura é também proporcionar o bem-estar à pessoa mesmo na proximidade da morte. Nesse estado, a pessoa aceita com serenidade os limites da existência, os limites dos recursos da medicina, e sem drama se entrega nas mãos de Deus. Para a pessoa de fé, a experiência do sofrimento a conduz a um nível espiritual de aceitação de que a vida neste mundo é limitada. Como cristão, quem buscou viver na graça de Deus e na comunhão com Cristo também crê que morrer é estar com Cristo e participar da vida plena na ressurreição (cf. 1Ts 4,14; Cl 3,3-4; Fl 1,20-21). Nesse sentido, a cura é uma experiência de bem-estar espiritual diante da morte. Busca-se viver com qualidade de vida e também enfrentar com coragem e serenidade o momento derradeiro como coroamento da vida. Isso é também libertação.
Em relação à libertação, encontram-se na Bíblia principalmente os verbos: livrar, salvar, curar, resgatar, redimir, tirar de… A cura, em geral, é interpretada como ação libertadora de Deus. Ele traz a salvação. O próprio nome “Jesus” no Novo Testamento significa que ele salvará o seu povo dos seus pecados (Mt 1,21). Tomemos o conceito mais conhecido na teologia, o termo “redenção”. Ele se origina dos verbos hebraicos gahal e padah. O verbo gahal foi traduzido pela Bíblia Grega (Setenta) 90 vezes como “resgatar”, 45 vezes como “pôr em liberdade”, 41 vezes como “libertar” e também “salvar”. O verbo gahal nunca foi traduzido com o sentido de libertar com pagamento de resgate. Deus é o sujeito que resgata e salva gratuitamente. Ele tirou o povo do Egito por sua iniciativa. Deus se apresenta no livro do Êxodo como Senhor e Libertador: “Eu sou o Senhor teu Deus que te fez sair da terra do Egito, da casa da escravidão” (Ex 20,2). A libertação é parte essencial do projeto de Deus. O povo passou por experiência de escravidão, doença, fome, derrotas. Muitas vezes faltaram com o compromisso assumido de seguir a lei de Deus, não fizeram a sua parte. Mesmo assim, o Senhor estava ao seu lado para exortar à fidelidade. O resultado da cura é o “Schalom”, termo que indica uma situação de paz, integridade, plenitude. No Novo Testamento, Jesus dedicou parte de sua vida ao cuidado da saúde. Seu programa era anunciar a boa notícia aos pobres, dar vista aos cegos, libertar os presos, devolver a audição aos surdos, curar os paralíticos, purificar os leprosos, ressuscitar mortos (cf. Mt 11,5; Lc 4,18-19; 7,21-22). Sua missão incluía também libertar as pessoas do domínio do diabo (cf. At 10,38). Enfim, a missão de Jesus era anunciar o ano da graça do Senhor (cf. Lc 4,18), os tempos sonhados pelo povo com o estabelecimento do reinado de Deus.
  1. Relatos de cura no Antigo Testamento
No Antigo Testamento, a cura é sempre atribuída à intervenção de Deus, Senhor da vida e da morte. A doença era vista muitas vezes como castigo de Deus pelo pecado. No anúncio da libertação futura, a cura e a saúde seriam restituídas com a eliminação do pecado, causa dos males (cf. Is 33,24; Sl 40,5). No entanto, “a partir do exílio por influência babilônica, toma força a personificação de certos seres inimigos de Deus, e assim se difunde a crença de que anjos maus e demônios também eram causadores da dor, doença e morte” (CHAPA, “Exorcistas”, in AGUIRRE, 2009, p. 121). Na Bíblia, a cura dos males vem de Deus, considerado o médico supremo. Por esse motivo, o recurso aos médicos era visto quase como ofensa a Deus. O rei Asa é admoestado porque “nem mesmo na doença procurou o Senhor, recorrendo só aos médicos” (2Cr 16,12) (cf. VENDRAME, “Curas”, in Dicionário Interdisciplinar da Pastoral da Saúde, 1999, p. 275). Na verdade, havia certos tabus que impediam o avanço da medicina. Por exemplo, a proibição de tocar em cadáveres impedia a autópsia e a descoberta das causas das doenças (Nm 5,2; 6,6; 19,11-16). A aversão pelo sangue derramado (Gn 9,3-4; Lv 19,26) impedia qualquer experimento em matéria de cirurgia. A lei da pureza legal marginalizava os doentes de pele, chamados leprosos (Lv 13-14) (SCHIAVO e DA SILVA, 2000, p. 43). Depois do exílio, abre-se o caminho para a ciência médica e para uma medicina alternativa. Porém não à margem do poder de Deus. O médico deve ser honrado (Eclo 38,1), mas é do Altíssimo que vem a cura: ele deu a ciência aos homens (Eclo 38,2.6), como também ao farmacêutico que prepara as misturas (Eclo 38,7) (VENDRAME, idem, p. 275).
As curas individuais são poucas. As mais famosas são a cura da lepra de Naamã (2Rs 5,1-27), a cura de uma enfermidade mortal de Ezequias (2Rs 20,1-11; Is 38,1-22), a cura de Jeroboão (1Rs 12,26-13,10), de Miriam, irmã de Moisés (Nm 12,11-15), de Nabucodonosor (Dn 4,1-34). Há muitos salmos de súplica por cura de doença (Sl 6; 22; 38; 39; 88; 102; 143), mas também de ação de graças pela cura (Sl 30).
2.1. A cura de Naamã: uma nova vida na fé (2Rs 5,1-27)
Trata-se de um relato de cura da lepra com intervenção do profeta Eliseu. Observemos os efeitos da cura: além da restituição da saúde física, houve uma transformação na vida daquele homem, comenta Olivier Artus (Curare salvar no Antigo Testamento, in MICHEL e PIERRE, 2007, p. 46). Por duas vezes o relato utiliza o substantivo “servo” para expressar essa mudança. De um lado, percebe-se a arrogância de Naamã, que se admirava do fato de Eliseu não vir a seu encontro e enviar um mensageiro (2Rs 5,11). Após a cura, a arrogância dá lugar à reverência para com o profeta, e Naamã fala como “servo” do profeta: “Por favor, aceita este presente do teu servo” (2Rs 5,15). Naamã, no início do relato, é apresentado pelo rei de Aram (Síria) como “seu servo”, depois Naamã designa-se a si mesmo como servo de Eliseu, em 2Rs 5,15.18. Definido em 2Rs 5,1 como chefe do exército do rei de Aram, a partir de 2Rs 5,15 Naamã encontra nova identidade fundada na fé no Deus de Israel: “Agora sei que não há Deus em toda a terra a não ser em Israel”. As observações acerca do personagem Naamã mostram que a cura não constitui o núcleo da transformação: ela se torna possível por sua conversão, que o faz adotar uma atitude de servo com relação a Eliseu, homem de Deus. A cura é sinal de uma transformação interna.
2.2. A cura de Ezequias: Deus escutou sua oração (2Rs 20,1-11)
Ezequias, rei de Judá, é atingido por uma doença mortal. O profeta Isaías lhe anuncia que morrerá em breve. Ezequias cai em prantos e, em sua oração, expressa que sempre foi fiel e praticou o que era agradável aos olhos de Deus. Logo em seguida Isaías é enviado a transmitir a boa-nova ao rei: “O Senhor escutou a prece e viu suas lágrimas!” Com uma aplicação de espécie de pasta de figos sobre a úlcera, Ezequias é curado e vive mais 17 anos. Temos a súplica em prantos que é ouvida por Deus. Vemos nas palavras de Ezequias que ele foi fiel e fez o que era agradável a Deus (cf. 2Rs 20,3). Pela concepção da teologia da retribuição, Deus recompensa os bons e castiga os malvados. Ezequias é curado, pois reivindicou os seus méritos na oração. Como não havia explicação para a causa da doença, o mal era atribuído a um possível castigo de Deus. E a cura só poderia vir de Deus. Ele fere e cura a ferida (cf. Dt 32,39)! Porém essa cura acontece com intervenção humana, mediante a aplicação de uma pasta de figos. Uma teologia mais desenvolvida da cura e libertação na Bíblia valoriza a intervenção humana e os remédios para a cura, no caso as plantas úteis como alimento e remédio (cf. Gn 1,30; Ez 47,12).
2.3. Salmo de ação de graças de um doente curado (Sl 30)
O salmista exalta o Senhor porque o tirou do scheol (30,2). “Eu te exalto, Senhor, porque me livraste”. O verbo hebraico dalah (30,2), que significa tirar para fora, é usado quando se fala de tirar água do fundo do poço com um balde. É traduzido também como “livrar”. A imagem é forte, pois o salmista reconhece que o Senhor o tirou fora da situação de crise, de morte iminente de quem estava descendo ao fundo do poço. Sua vida estava em fase terminal, descendo à região dos mortos. Ele gritou e o Senhor o curou (30,3). A invocação de cura de doença indica que ele está consciente de que sua doença não é apenas arbítrio de Deus, mas também pode ser resposta a sua atitude de presunção (30,7). Nesse sentido, a cura inclui também o perdão dos pecados e a reintegração na comunidade dos justos. A seguir, o salmista conta o passado antes da doença, lembrando sua segurança e prosperidade: “Eu dizia na minha prosperidade, jamais serei abalado” (30,7). Quando tudo vai bem, facilmente as pessoas se esquecem de Deus, mas quando vêm crise e ameaça, a reação é imediata: “A ti, Senhor, clamo, imploro graça, ó Deus, meu salvador” (30,9). “Escuta, Senhor, tem piedade de mim, ajuda-me” (30,11). A cura aconteceu no aspecto físico. O Senhor impede a morte, a descida ao scheol. Porém acontece também a cura em âmbito espiritual. O salmista é curado de sua presunção e falsa segurança. Torna-se humilde e agradecido. Reconhece que o Senhor restitui a vida. A doença foi interpretada como uma advertência no momento da ira divina para corrigir. A cura espiritual aparece na capacidade de transformar os conflitos da vida em fonte de espiritualidade, dando novo significado à existência.
  1. Cura e libertação na prática de Jesus
Se a medicina moderna, com todos os recursos, não consegue a cura de tantas doenças, podemos imaginar como era 2 mil anos atrás. Grande parte da população era doente e o índice de mortalidade era alto. Isso explica por que grande parte do evangelho relata o ministério de Jesus curando doentes de toda espécie. Os gestos milagrosos de Jesus são conhecidos como “gestos poderosos”, “sinais” ou “obras” de Deus. São sinais de que o Reino de Deus chegou na prática libertadora de Jesus (Mt 12,28; Lc 11,20). Jesus curou quatro cegos, quatro paralíticos, um leproso, outros dez leprosos de uma vez, exorcizou cinco endemoninhados, curou a distância a filha da cananeia e o empregado do oficial romano, devolveu a fala a um surdo-mudo, baixou a febre da sogra de Pedro, curou uma mulher com hemorragia, colocou a orelha de um soldado, além de realizar diversas curas em massa (SCHIAVO e DA SILVA, 2000, p. 17). Quanto aos tipos de milagres, os evangelhos falam de curas e de libertações de possessões do demônio ou exorcismos. Nem sempre é clara a distinção entre as duas formas de intervenção curativa de Jesus. Isso porque algumas doenças físicas ou psicofísicas – surdez, mutismo, epilepsia – eram atribuídas à presença e ação dos espíritos maus (Mt 12,22; Lc 11,14). Analisemos alguns relatos para mostrar a dimensão da cura e seu significado na prática de Jesus.
3.1. A sogra de Pedro pôs-se a servi-los (Mc 1,29-31)
É o relato de cura mais breve. Jesus vai ao encontro dos doentes, junto com seus discípulos. Ele é o terapeuta da família, pois visita as casas do povo. Não se sabe a causa da doença da sogra de Pedro. Jesus, sem dizer uma palavra, apenas “tomou-a pela mão e a fez levantar-se” (Mc 1,31), e a febre a deixou. O resultado da cura: a sogra de Pedro voltou a fazer o que sempre fazia, “pôs-se a servi-los”. Mais uma vez aparece a humanidade de Jesus. A cura vai acontecer na solidariedade e compaixão com os doentes. No relato paralelo de Lc 4,38-39, Jesus cura fazendo uma espécie de exorcismo: “esconjurou a febre”. Muitos acreditavam que a febre vinha dos espíritos do mal. O importante foi o resultado da visita de Jesus em vista da cura.
3.2. O leproso tocado por Jesus e integrado na sociedade (Mc 1,40-45)
O relato apresenta o leproso que foi até Jesus e implorou-lhe a cura, pondo-se de joelhos (cf. Mc 1,40). Marcos relata que Jesus foi movido por compaixão (cf. Mc 1,41). Jesus foi tocado pela situação dramática daquele homem e se compadeceu,
“tocou-o” e o curou. Jesus rompe o preconceito segundo o qual tocar uma pessoa com aquela enfermidade fazia impuro quem a tocasse. Ele é movido de compaixão, aproxima-se e assim revela a face de Deus compadecido pelos doentes. Jesus vai na contramão dos costumes da época e resgata a dignidade da pessoa. Ele acolhe, ouve a súplica e toca. Aconteceu uma cura e libertação da pessoa doente, sua dignidade foi resgatada. Como reação, aquele que antes era leproso e vivia excluído, longe da comunidade, não pode guardar silêncio. Ele sai e proclama a boa notícia por toda parte. Fica clara a inclusão do curado na comunidade, mediante a prática de Jesus em favor dos excluídos. Fica claro também que a fé do doente coopera no processo da cura com o toque e as palavras de Jesus “quero, fica purificado”.
3.3. O que era paralítico saiu carregando o leito (Mc 2,1-12)                   
Como na narrativa da cura do leproso que veio até Jesus (cf. Mc 1,40), aqui muitos vão até Jesus “em casa”. Ocasião em que trazem um paralítico no leito (cf. Mc 2,3). O cenário é a casa apinhada de pessoas, de sorte que ninguém podia entrar. O relato é dramático pelo fato de descobrirem o telhado para introduzir o paralítico com seu leito! O doente nada diz, mas Jesus, vendo a fé daqueles que carregavam o doente, fala: “Filho, os teus pecados estão perdoados” (Mc 12,5). Há uma introdução do tema do perdão dos pecados associado à cura (cf. Mc 2,5b-10a). Jesus ordena: “Para que saibais que o Filho do homem tem o poder de perdoar pecados na terra, eu te ordeno, levanta-te” (Mc 2,10b-11). O resultado é imediato: o paralítico se levantou e saiu diante de todos carregando seu leito (Mc 2,12). O mesmo que entrou com dificuldade, sendo carregado, agora sai carregando a própria cama. A libertação é integral com o perdão dos pecados e a recuperação do enfermo. O pecado, segundo a concepção judaica da época, estava ligado à enfermidade (GNILKA, 1986, p. 116). Realmente o mal, os pecados bloqueiam as pessoas, paralisam. O perdão solta os laços, as cadeias, liberta a pessoa para caminhar com as próprias pernas. A prática de Jesus ligada à sua grande compaixão revela a nova face de Deus, humana, como um Pai. Ele chama o paralítico de “filho”. A cura conta com a fé e a solidariedade da comunidade, representada naqueles que carregavam o paralítico.
3.4. O que era endemoninhado se tornou missionário (Mc 5,1-20)
Trata-se do caso do endemoninhado de Gerasa. Do extremo da situação de exclusão, sofrimento e violência, o homem é curado e aparece “vestido, sentado e de são juízo”. Depois, é enviado a anunciar o que Jesus fez por ele. O narrador descreve o fato num contexto de viagem. As indicações de desembarque em Gerasa (cf. Mc 5,1) e subida no barco (cf. Mc 5,18) mostram a preocupação de situar o relato no contexto de missão. No final do milagre, Jesus parte de volta (cf. Mc 5,18) e também o curado parte em missão por ordem de Jesus. A ordem de marchar ou de ir para casa é típica da conclusão de relatos de milagres (Mc 1,44; 2,11; 5,34; 8,29; 10,52). A preocupação de ir aos outros lugares deriva do interesse do evangelista de destacar a urgência da missão. Certas repetições parecem acentuar também a necessidade de testemunhar o fato: por duas vezes, o endemoninhado vai a Jesus (cf. Mc 5,2 e 5,6). Duas vezes é contado o que aconteceu ao endemoninhado e aos porcos por meio dos pastores (cf. Mc 5,14) e daqueles que viram (cf. Mc 5,16). O fato será testemunhado também pelo próprio curado, que anunciará aos seus o milagre. O afogamento no mar dos porcos, associados à legião, indica a derrota definitiva do poder do mal. (Porcos: sistema judaico da lei do puro e impuro que excluía; legião: força organizada de destruição comandada pelo poder romano na região da Decápole.)
O milagre mostra a rejeição da dominação política. A simbologia das correntes, grilhões, algemas sugere o contexto de escravidão. A narração indica a luta de Jesus, “o mais forte para amarrar o homem forte” (Mc 3,27). Gerd Theissen tem também essa posição: “a opressão por um povo dirigente estrangeiro às vezes aparece em código, como possessão por um espírito estrangeiro”. No texto de Marcos, a menção dos 2 mil porcos que despencaram mar adentro simboliza a libertação do povo da dominação das legiões romanas no território da Decápole. A possessão dos demônios em sociedades tradicionais muitas vezes também é reflexo de antagonismos de classe enraizados na exploração econômica. A possessão pode ser ainda uma forma socialmente aceitável de protesto indireto contra a opressão, ou mesmo fuga desta. A tensão entre seu ódio aos opressores e a necessidade de reprimir esse ódio a fim de evitar recriminações dos opressores leva o indivíduo a ficar louco… Ele se retirava a um mundo interior onde pudesse resistir à dominação. Nesse sentido, o endemoninhado representa a ansiedade coletiva diante do imperialismo. Trata-se, segundo Franz Fanon, de colonização da mente, em que a angústia da comunidade diante de sua subjugação é reprimida e, depois, se volta contra si mesma. Isso parece ser suposto no relato de Marcos, quando diz que o homem emprega violência contra si mesmo (cf. Mc 5,5). Segundo Carmen Bernabé Ubieta, “as doenças de possessão são reflexo corporal de um conflito interno produzido em grande medida pela defasagem entre os desejos e sentimentos internos e o que as normas sociais impõem e permitem à pessoa. Nesse caso, por meio dos demônios que gritam, a pessoa expressa indiretamente as queixas que tem contra o seu ambiente (“A cura do endemoninhado de Gerasa”, in AGUIRRE, 2005, p. 113).
3.5. O cego Bartimeu tornado discípulo (Mc 10,46-52)
O relato situa-se no contexto da caminhada de Jesus para Jerusalém, em que ele instrui os discípulos sobre a natureza da sua missão messiânica, revela quem ele é e apresenta as exigências do seguimento. Aos poucos, os discípulos vão compreender o que é ser discípulo, sua mente e seus olhos vão se abrir. A intervenção de Jesus curando cegos antes de iniciar a caminhada (cf. Mc 8,22-26) – e, no final da caminhada, já próximos a Jerusalém (cf. Mc 10,52-56) – tem a ver com a cura da cegueira dos discípulos. A cura significa a aquisição de nova visão, a mudança de paradigmas para entender o projeto de Jesus. Certas particularidades do relato parecem querer apresentar o modelo do discípulo. Vejamos.
É o único milagre no qual nos é dado o nome da pessoa curada e também o único caso em que o curado segue Jesus. Ao seguir Jesus, ele joga o manto e vai atrás. É instrutiva a comparação com a cura do cego de Betsaida (Mc 8,22-26) e também a cura do surdo-mudo situado na Decápole (Mc 7,31-37). No primeiro relato, Jesus é o protagonista de toda a ação, conduz o cego pela mão para fora, faz barro com saliva, aplica no olho. No segundo relato, na cura do cego Bartimeu, os dados se invertem. O doente é o sujeito da maior parte das ações. É ele quem grita e pede: “Filho de Davi, Jesus, tem compaixão de mim” (Mc 10,47). Ele deixa a capa, levanta-se, vai até Jesus (cf. Mc 10,50). Há um diálogo e Jesus lhe pergunta: “Que queres que eu te faça?” O cego responde: “Que eu possa ver novamente” (Mc 10,51). E o relato termina com as palavras de Jesus: “Vai, a tua fé te salvou”. Porque foi salvo da cegueira, ele seguia Jesus pelo caminho (Mc 10,52).
  1. Modelos explicativos e estratégias de cura
Como falar de cura e libertação à luz dos relatos de cura dos evangelhos, diante do modelo biomédico, empírico, da medicina ocidental? É importante clarear os modelos explicativos da doença no primeiro século e o modelo atual, científico. Segundo qual perspectiva o modelo cultural com uma hermenêutica teológica, em nossos dias, pode iluminar a prática da cura e dar-lhe sentido? Para esta reflexão, sigo o estudo de Santiago Guijarro Oporto (“Relatos de cura e antropologia”, in AGUIRRE, 2009, p. 249-270), que apresenta uma chave interpretativa dos relatos de cura à luz da antropologia médica.
Por trás das diversas formas de entender a doença e de reagir diante dela, há um modelo explicativo. Sua função é oferecer uma explicação da doença, servir de guia na hora de escolher as diferentes terapias disponíveis e dar sentido à doença do ponto de vista pessoal e social. O modelo explicativo é o que determina quais sintomas são importantes e quais não são, e como devem ser interpretados e tratados (cf. AGUIRRE, 2009, p. 256). O entendimento da patologia como doença é, portanto, um processo cultural. Todas as culturas possuem moldes para perceber, entender, explicar e tratar os sintomas (idem, p. 257).
A estratégia terapêutica é o procedimento seguido para tratar uma doença e obter a cura. Tal entendimento da doença depende do modelo explicativo popular da medicina do século I no Mediterrâneo, enquanto nosso entendimento depende do modelo em que se sustenta o setor profissional da medicina ocidental. Daí a importância de relacionar o processo de cura no tempo de Jesus com o processo de cura como é explicado pela medicina ocidental (idem, p. 259).
O quadro a seguir resume as principais caraterísticas de ambos os modelos (idem, p. 260):
Modelo biomédico (empírico)
Entidades patológicas: lesão ou disfunção somática ou psicofisiológica (a disfunção é entendida como patologia).
Estrutura de relevância: são relevantes os dados que apresentam uma desordem somática.
Procedimentos de identificação: revisão dos sistemas; testes de laboratório.
Meta da interpretação: diagnóstico e explicação.
Estratégia interpretativa: examinar dialeticamente a relação entre os sintomas e as desordens somáticas.
Objetivo terapêutico: intervir no processo da doença somática.
Modelo cultural (hermenêutico)
Entidade patológica: universo de sentido, a doença percebida pelo paciente (a disfunção é entendida como doença).
Estrutura de relevância: são relevantes os dados que revelam os significados da doença.
Procedimentos de identificação: avaliar os modelos explicativos; decifrar o campo semântico.
Meta da interpretação: compreensão.
Estratégia interpretativa: examinar dialeticamente a relação entre os sintomas (texto) e o campo semântico (contexto).
Objetivo terapêutico: tratar a experiência do paciente: fazer entender os aspectos ocultos da realidade da doença e transformá-la.
O modelo biomédico é apto para entender a doença e a cura no setor profissional da medicina ocidental, mas é pouco relevante quando aplicado aos casos em que a doença é entendida e vivida segundo certos padrões culturais diferentes, como acontece nos relatos de cura e libertação nos evangelhos. Para os evangelhos, é mais útil o modelo cultural (p. 260). Naquela cultura, Jesus e os primeiros cristãos pensavam que a origem da doença e da saúde estava em Deus (cf. Ex 15,26). Embora no relato da cegueira, por exemplo, não se mencionem as causas, podemos supor que eles a atribuíssem à ação de um demônio (cf. Mt 12,22) ou talvez a um pecado pessoal herdado (cf. Jo 9,2). Esse era o pano de fundo comum na cultura e religião da época (p. 263). Portanto, no caso da cura do cego de Jericó, são mais significativos os dados que revelam o significado da doença que a cegueira em si mesma. O relato é um exemplo didático com o objetivo de instruir os discípulos de que a cura da cegueira significa (no contexto da seção de instrução dos discípulos: Mc 8,3-10,52) a cura dos próprios discípulos. O texto tem em vista apresentar o modelo do verdadeiro seguidor de Jesus, que compreende as exigências do seguimento e assume suas consequências. No caso, o que era cego, curado pela fé, é capaz de jogar o manto e ir atrás de Jesus. Na verdade, a cura aconteceu no âmbito da compreensão dos discípulos do que seja o seguimento; o médico Jesus atuou junto com o paciente. A cura veio da fé daquele que era cego, resultando em uma transformação na sua vida. Desse momento em diante, com a nova visão, mendicância, exclusão e desprezo ficam para trás. Ele é discípulo integrado na vida do povo, ciente do caminho que deve tomar.
Em alguns dos relatos que analisamos, o aspecto da fé das pessoas curadas pode parecer, segundo a visão da medicina científica atual, apenas uma forma de explicar a cura, um dado cultural da época. Porém a fé é existencial. O ser humano é essencialmente religioso e, em todos os tempos e lugares, há quem atribua tanto a doença como a cura à intervenção de Deus. Há quem passe pela doença e, na sua visão de fé, a interprete como uma prova e sinal divino que o levem a uma mudança de vida. Há quem, acometido de doença mortal, após gastar todos os bens com médicos, recorra a uma intervenção milagrosa. A ajuda, os cuidados paliativos e a assistência religiosa trarão bem-estar, paz de espírito ao doente, a fim de lidar com sua situação. A cura e a libertação abrangem o cuidado pela pessoa, pelo seu bem-estar físico, espiritual, social, até nos momentos derradeiros da existência.
No contexto cristão, toda cura ou tratamento feito com espírito de abnegação e caridade evangélica têm valor de salvação e são sinais do reino futuro de paz, vida plena, saúde. O processo de cura passa pelos modelos biomédicos da medicina moderna, que, sempre mais desenvolvidos, proporcionam maior longevidade com qualidade de vida. O profissional da saúde tem o compromisso de promover a vida e defendê-la com os recursos disponíveis. Deus fez o médico e o remédio. Mas a graça divina supõe a natureza humana. Deus age não de forma mágica, como se acreditava no tempo de Jesus, quando havia muitos milagreiros. Ele age por meio dos recursos humanos, no desenvolvimento e descoberta de novas técnicas. Todo desenvolvimento humano para o bem e defesa da vida é dom de Deus, pois Deus coopera com aqueles que fazem o bem e promovem a vida. Na comum expressão “graças a Deus”, após bem-sucedida intervenção cirúrgica, o médico atribui sua habilidade a um dom de Deus. Nesse sentido, expressa um significado mais profundo, um sentido espiritual.
Conclusões
  1. Cura e libertação na Bíblia são parte essencial do plano de Deus. Os diversos relatos de cura, tanto no Antigo como no Novo Testamento, são sinais de que o Senhor intervém na história e escuta a súplica dos doentes. A história do povo da Bíblia, como também as de outros povos, com suas histórias de curas, com seus meios terapêuticos, revelam a luta contra as doenças na busca incessante de cura e bem-estar. Ser curado, especialmente nos relatos que analisamos, significa o pleno restabelecimento da pessoa, o resgate de sua dignidade de ser humano e sua reintegração no serviço à comunidade. Os curados tanto proclamam o que aconteceu de bom em sua vida (cf. Mc 5,18-20) como se engajam numa missão e serviço (cf. Mc 1,29-30; 1,43).
  2. A cura e libertação abrangem a pessoa na sua totalidade, pois saúde é bem-estar físico, psíquico, espiritual e social. A cura e salvação da pessoa, no sentido cristão, são mais que o restabelecimento da saúde física: operam na pessoa nova vida, novo sentido, que transcende a vida presente e a projeta na vida eterna. Eis a vida plena de quem crê que transcende a morte. Nesse sentido, para nós, cristãos, se nesta vida cremos que Jesus morreu e ressuscitou, também com ele, na morte, ressuscitaremos para uma vida nova (cf. Rm 6,5.8). A vida nova de ressuscitados já está presente naqueles que vivem neste mundo na fé e na esperança. Paulo diz: “Vocês ressuscitaram com Cristo, por isso busquem as coisas do alto” (Cl 3,1). Isso não significa fuga do mundo, mas compromisso com o projeto de Deus de transformar a vida presente mediante a libertação dos males e doenças. Assim vai acontecendo a transfiguração do mundo, com a diminuição da dor, da doença, do sofrimento.
  3. Curas e libertações acontecem na aplicação dos recursos modernos da medicina, e não apenas na crença de intervenção mágica de milagreiros e exorcistas, como ocorria no primeiro século da era cristã. A fé verdadeira se torna visível na ação e no planejamento. Deus atua na história, na ação do médico e no efeito dos remédios. A graça da cura opera segundo a natureza, seguindo a evolução cultural e científica da humanidade. Deus deu ao ser humano inteligência para descobrir técnicas terapêuticas e novos remédios para fazer frente ao desafio das enfermidades. Deus se revela hoje nos sinais dos tempos. Vemos a intervenção dele no horizonte da teologia da criação.
  4. Jesus curou muitos doentes das mais variadas enfermidades e deu aos discípulos a missão de fazer o mesmo. Inspirados no cuidado de Jesus com os doentes, os cristãos, especialmente os profissionais da saúde, encontram o sentido profundo do cuidado e atenção aos doentes e do exercício da medicina. A mística cristã do cuidado caracteriza-se pela compaixão e pelo modo humano de tratar a pessoa doente.
  5. A cura física é seguida também da cura espiritual, que liberta a consciência do pecado. A cura espiritual inclui o perdão a si próprio, mediante a aceitação da própria condição humana, e o perdão de Deus, que torna a pessoa justa. A experiência da gratuidade divina que cura e liberta transcende a cura física e produz na pessoa bem-estar e paz espiritual vindos de Deus. Nesse nível a fé é fundamental, tanto para quem está doente como para quem trata o doente. Na Igreja primitiva, o cuidado dos doentes era uma preocupação pastoral que certamente seguia a prática dos discípulos de Jesus de orar e ungir os doentes (cf. Mc 6,13). Esse cuidado, que torna presente o gesto curador de Jesus, está na missão da Igreja.
  6. Apóstolo. Capelão/Juiz. Mestre e Doutor em Ciências da Religião Dr. Edson Cavalcante