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terça-feira, 4 de dezembro de 2018

PROTEÇÃO DE DEUS


                                                         PROTEÇÃO DE DEUS 
Não é fácil viver. A vida é frágil demais, curta demais, cheia de perigos visíveis e invisíveis. Muitas vezes corremos riscos que sequer percebemos, que nem imaginamos, mas que estava em nosso caminho, pronto a nos vitimar. Alguns acidentes são até absurdos, tal sua impossibilidade aparente. Alguém está andando numa calçada e um caminhão perde um dos pneus que atropela e mata o pedestre, ou está numa parada de ônibus e a marquise de um prédio desaba sobre as pessoas.

Os acidentes, os embaraços, os problemas, as dificuldades fazem parte da vida e ninguém está livre, ninguém passa pela vida sem ter tido uma perda, ou um problema insolúvel aos olhos humanos, mas tem um segredinho que alivia a alma e traz a paz ao coração: a proteção de Deus.
Deus protege todo mundo? Não, infelizmente, não. Deus tem misericórdia de gregos, troianos, paulistas e paraibanos, mas Sua proteção, a proteção da sombra do Onipotente não é para todo mundo, porém está ao alcance de todos.

Estar sob a proteção de Deus não significa estar absolutamente impermeável às intempéries da vida, antes significa que o pior jamais acontecerá, até o dia em que nossa missão estiver cumprida neste mundo e chegar a hora de passar a régua e prestar contas diante do Trono de Deus. Até lá, as coisas mais incríveis acontecerão para nos proteger do pior.

Não é por acaso que Jesus disse aos Seus discípulos: “E estes sinais seguirão aos que crerem: Em meu nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas; pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos sobre os enfermos, e os curarão.” (Marcos 16:17-18). É a proteção de Deus em ação, livrando os amados de Jesus de todo mal.

Por que Deus protege os seguidores de Jesus? Esta proteção é uma resposta à oração de Jesus, aquela chamada de oração sacerdotal de Jesus, onde Ele orou por você e por mim.

Próximo aos dias de Seu sofrimento e morte, Jesus fez a mais bela oração por Seus discípulos, pedindo a proteção de Deus sobre todos aqueles que creem em Seu Nome e disse: “Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal.” (João 17:15).

Jesus foi um homem do Seu tempo, que viveu de acordo com as regras da sociedade, que frequentou festa de casamento, nunca se recusou a entrar na casa de ninguém, ainda que fosse um fariseu, ou um pecador publicano. Jesus não se reuniu apenas com Seus discípulos, pelo contrário, as multidões acorriam onde Jesus estivesse e Ele a todos atendia. Jesus se inseriu no ritmo de vida do Seu tempo e não se excluiu de nada, Ele veio ao mundo, não saiu do mundo para pregar Sua mensagem de salvação.

Jesus mostrou, por Seu exemplo, que é possível viver neste mundo sem se contaminar com os pecados seculares. Numa festa de casamento, ou num banquete na casa de Zaqueu, Jesus viveu todas as situações cotidianas com a mesma dignidade com que multiplicou pães e peixes, ou expulsou os demônios. Ele nunca pretendeu criar um universo paralelo onde Seus discípulos (só um cadinho de gente) vivessem afastados do resto do mundo, ao contrário a ordem foi: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura.” (Marcos 16:15).

Existem algumas orações que estão pré-respondidas, como já vimos aqui no Blog, e a proteção de Deus é uma delas. Jesus não orou apenas por Seus discípulos daquele tempo, Ele orou por cada um de nós que viemos a crer em Seu Nome, veja que lindo: “E não rogo somente por estes, mas também por aqueles que pela sua palavra hão de crer em mim. (João 17:20). Glória a Deus!

Ninguém vira super-herói só porque reconheceu Jesus como Salvador. Não se pode sair por aí desafiando os perigos, criando situações de risco, porque Jesus nos garante proteção. Isso é tentar a Deus. A base bíblica para requerermos a proteção de Deus é estar no centro de Sua vontade.
Se Deus nos orientar a entrar numa boca de fumo para pregar a salvação em Jesus, vamos entrar e sair em perfeita segurança, ainda que haja um tremendo tiroteio, mas isso SE DEUS MANDAR, caso contrário, Deus não se responsabiliza por nossa segurança.

Se nossa casa não tem todos os dispositivos de segurança do mercado, porque não temos condições financeiras de comprar e oramos a Deus pedindo Seus anjos para nos proteger, pode ter certeza que Ele nos protegerá, mas se temos condições de instalar câmeras de monitoramento, alarmes, cercas elétricas, o escambau e não o fazemos, porque “Deus nos protege”, isso é temeridade e Deus não se responsabiliza por nossa irresponsabilidade.

Outra coisa. É preciso conhecer a Palavra de Deus para uma oração eficaz. Como assim? Simples. Se nós que somos humanos velamos por nossa palavra para cumpri-la, imagine Deus? Ele diz em Sua Palavra: “Permanecei naquela mesma casa, comendo e bebendo o que vos oferecerem; pois digno é o trabalhador do seu salário.” (Lucas 10:7). Todas as vezes que você sai de casa para trabalhar, para sustentar sua família, peça a proteção de Deus para sair e voltar em segurança, com base na Palavra que diz que digno é o trabalhador do seu salário.

Deus vela por Sua Palavra para cumpri-la, é o que diz em Jeremias, veja: “E disse-me o SENHOR: Viste bem; porque eu velo sobre a minha palavra para cumpri-la.” (Jeremias 1:12). E mais: “Deus não é homem, para que minta; nem filho do homem, para que se arrependa; porventura diria ele, e não o faria? Ou falaria, e não o confirmaria?” (Números 23:19). Deus é responsável pela Sua própria Palavra e se Ele prometeu, certamente cumprirá, são favas contadas.

A proteção de Deus é absoluta, perfeita e irrevogável, é uma resposta à oração de Jesus, só precisamos cumprir a vontade de Deus, saber orar com base na Bíblia e seguir em frente. Não é minha ideia pressionar você que ainda não se decidiu a seguir Jesus, mas a verdade precisa ser dita: reconhecer Jesus como único Salvador é fundamental e urgente. Não deixe para amanhã, nem eu e nem você sabemos se haverá amanhã para cada um de nós. 
Apóstolo. Capelão/Juiz. Mestre e Doutor em Ciências da Religião Dr. Edson Cavalcante

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

A IGREJA DE COLOSSOS 2

                                                      A IGREJA DE COLOSSOS 2
A cidade e o povo de Colossos

Colossos ficava na região sul da antiga Frígia (oeste da Turquia moderna) no vale do rio Lico. Em tempos anteriores aos dias de Paulo, autor da epístola, sabe-se que Colossos foi uma grande cidade, a qual conseguiu impedir o avanço das tropas militares do rei Xerxes. Sua importância econômica na época da epístola se resumia à fabricação de lã de carneiros, que eram pastoreados nos encostos do vale do Lico. O nome "colossense" era usado para designar uma cor específica (colossinus) de lã tingida.


Mas Colossos perdeu sua grandiosidade enquanto cidade após influências políticas pelo império romano. Laodicéia, situada a oeste de Colossos, por ter se tornado sede da administração romana, passa a se desenvolver mais rapidamente em todos os quesitos,fazendo de Colossos uma cidade de segundo e terceiro plano. Após o terremoto de 60-1 d.C., Laodicéia e Colossos foram destruídas, todavia, somente Laodicéia, apesar de não receber ajuda financeira externa, conseguiu se reerguer. Colossos jamais se reconstruiu como antes do terremoto. Além do mais fontes afirmam que Colossos sofreu mais abalos sísmicos nesta mesma época.


Devido às mudanças nos cenários econômicos, Colossos passa a depender das cidades vizinhas. Estas, por sua vez, sofreram fortes mudanças culturais. Dentre essas mudanças as religiões se transformaram completamente. A região da Frígia era marcada pela predominância de dois objetos (deuses) de culto: A deusa Cibele e a deusa Íris. A primeira era asiática e a segunda africana. O fato é que o culto a estas era marcado pelo êxtase e alegria excessivos. Também faziam parte o rigor ascético e a circuncisão. A circuncisão veio após a infiltração do judaísmo juntamente com sua teologia monoteísta, que causou um sincretismo religioso no povo colossense após o advento do cristianismo primitivo.

Com o nascimento da ideia monoteísta religiões do império adotam, cada uma, o seu deus. Apolo, Íris, Cibele, Osíris, Dionísio, Asclépio, etc são alguns dos nomes destes deuses. É nessa cultura mística e extasiante que nasce o culto ao "Deus Altíssimo" (hypsitos Theos).

Para um povo formado de indígenas frígios e gregos, de cultura involuída em sua história, em ascensão religiosa do judaísmo no âmbito de uma fusão de culturas helenistas com o rigor da religião frígia juntada a elementos religiosos iranianos e a características de um ensinamento sapiencial dos cultos de mistério é que Paulo escreve sua epístola ensinando a verdadeira e correta leitura do cristianismo para os colossenses.

A Igreja em Colossos

Segundo Atos 19.10 Paulo é o responsável pela propagação do Evangelho do Senhor na região da Ásia devido à passagem "todos os habitantes da Ásia ouviram a palavra do Senhor, tanto judeus como gregos". Contudo Paulo nunca teve contato com os colossenses ao menos até o dia da composição da carta (1.4 e 2.1).

O Evangelho foi pregado por Paulo em Colossos provavelmente através de Epafras. Esse era nativo da região (4.12), tinha um bom relacionamento com os crentes dali e com os apóstolos (4.13), além de ser um bom ministro do Evangelho (1.7) e de compartilhar da prisão de Paulo (Fm 23). Devido à sua prisão a carta não pôde ser entregue por Epafras. A responsabilidade foi confiada a Tíquico (4.7-8) o qual também ficou responsável por consolar a igreja de Colossos acerca da prisão de seu pastor.

A ocasião da carta e data de sua escrita

Quando Epafras veio ter com Paulo na prisão este relatou que a igreja de Colossos estava correspondendo bem à instrução dos apóstolos (1.6) e que estavam firmes na fé (2.5-7). Para alguns estudiosos da epístola, a igreja de Colossos era muito nova, sendo esta de semanas ou, em muito, de meses de idade. Para estes 14 versículos (1.4, 5, 6, 7, 8, 9, 21, 22, 23; 2.1, 2, 5, 6, 7; 3.7, 8, 9, 10) sustentam alusões diretas à conversão dos colossenses.

Mas sobre a real questão sobre a origem da carta até hoje não se sabe ao certo. Paulo escreve em resposta às queixas de Epafras sobre uma ameaça à fé dos colossenses, ameaça esta que não se sabe, uma vez que, na carta, só se tem a refutação de Paulo frente esta ameaça. Estas advertências podem ser constatadas em 2.4, 8e 2.16.

Há ainda um pequeno grupo de estudiosos que discutem a carta ser um pseudônimo (alguém que fala por Paulo) de Paulo, o que era comum para a época. Para este grupo a heresia que ameaçava a igreja de Colossos, a qual foi refutada na epístola, possui traços de um desenvolvimento teológico pós-paulino. A linguagem na epístola, segundo os estudiosos, está longe de ser paulino. Além do mais, segundo eles, não se sabe se a epístola foi escrita nas primeiras prisões de Paulo (década de 50), ou em prisão posterior (década de 60), ou até mesmo após sua morte (ideia remota).

A ameaça à fé

Quase nada se sabe sobre a heresia que ameaçava a igreja de Colossos. Poucos indícios são encontrados na epístola. Todavia alguns versículos deixam códigos e senhas para que se entenda um pouco a situação em que se encontrava a fé cristã de Colossos frente a esta heresia: Os respectivos versículos são:

1.19 Porque aprouve a Deus que nele residisse toda a plenitude
2.18 Pretextando humildade e culto a anjos
2.21 Não manuseies isto, não proves aquilo, não toques aquiloutro.
2.23 Rigor de devoção e auto-humilhação e severidade ao corpo

Estes versículos apontam para uma seita teosófica: Fala-se com mistério das coisas ocultas mas com uma determinada ciência e sabedoria. Muitos estudiosos da era primitiva da igreja mencionam que havia em Roma, uma religião com traços que se identificam com os versículos acima. Essa religião é conhecida como gnosticismo. Contudo o gnosticismo só se torna uma religião conhecida após 122 d.C., o que deixa claro que não é ainda esta religião que é descrita nos versos acima. Mas apesar de o gnosticismo ser a religião combatida por Paulo ainda fica a possibilidade de ser o nascimento desta na região de Colossos, nascimento este conhecido como proto-gnosticismo. Estudiosos apontam que no proto-gnosticismo já haviam compreensões que se encaixam nas refutações de Paulo na epístola.

O gnosticismo crê que existe um desejo eficaz de se ter relacionamentos com o Poder que se manifesta no universo. Para o gnosticismo a plenitude de Deus é distribuída por uma série de emanações do divino, estendendo-se do céu à terra. Estes "eões", ou elos, ou rebentos da divindade deviam ser venerados e homenageados como "espíritos elementares" ou anjos, ou deuses, que habitavam nas estrelas. Regem o destino dos homens e controlam a vida humana, e detém no seu poder a entrada no reino divino. Cristo é um deles, mas apenas um entre muitos.

Se realmente for o proto-gnosticismo a heresia que atormentava a fé cristã dos colossenses fica fácil compreender certas passagens da epístola. Para uma pessoa ter contato com esta plenitude divina geralmente o adepto se entregava a uma disciplina ascética rigorosa de abnegação. Abstinha-se de comidas e bebidas; observância dos ritos de iniciação e de purificação; e possivelmente uma vida de celibato e de mortificação do corpo humano. Tudo isso é combatido por Paulo (2.20-23). Entretanto ainda não se pode afirmar que é o proto-gnosticismo a heresia que ameaçou a fé dos colossenses.

A filosofia colossense

Dois termos são usados para identificar o falso ensino introduzido em Colossos: "Filosofia" (2.8) e "piedade forçada" (2.23). Tais palavras herdam da astrologia persa-caldeia, dos mistérios orientais-helenistas e da especulação gnóstica elementos teológicos, demonológicos e termos achados nos conceitos astrais dos mesmos. Paulo trabalha essa "filosofia" empregando algumas palavras como: Stoicheia, o culto da veneração aos anjos e a defesa da "humildade" como parte da "severidade ao corpo".

a) Stoicheia (2.8, 20): O significado mais preciso é "objetos que ficam numa fileira ou que formam uma série". O exemplo primitivo para se explicar esse termo é o alfabeto: Colocando letra por letra até formar uma linha com uma escrita inteligível ao homem. Aprimorando a explicação do termo é como se o universo obtivesse uma possibilidade de organizar as coisas para a melhor explicação do mesmo. Para isso necessita-se inteligência, pré-condicionamento e sabedoria.

Estas Stoicheia eram usadas pelos primeiros filósofos como tentativa de explicar o acaso, o oculto. Para eles a criação possui um sentido que só pode ser encontrado quando esse oculto se revela. Assim, basta ao homem se entregar em humildade e sabedoria para entender. Sendo assim, Paulo luta para explicar aos colossenses que tudo foi criado pelo Cristo cósmico (1.16, 17) e que essas Stoicheia nada mais são do que conceitos tiranos e astrológicos que tentam controlar as vidas humanas como joguetes do destino.

O apóstolo trabalha então a questão de que Cristo possui vitória sobre esses agentes demoníacos (Stoicheia) (2.15) e na liberdade do cristão diante deles (2.20). Todas as coisas estão sujeitas a Cristo (1.15ss) logo a plenitude das coisas está em Cristo e não nestas forças cósmicas (1.19; 2.9). Quanto às referências sobre a circuncisão em 2.11 e sobre a dieta e calendário de 2.16 não têm ligação com o judaísmo a não ser questões referentes ao sábado. A palavra Stoicheia usada em Colossenses é diferente em significado e sentido da de Gálatas 4.8-10, já que este último é referente aos judaizantes. (ver meu artigo sobre a epístola de Gálatas). A prática do ascetismo fazia parte da disciplina e sobre o "culto dos anjos" (2.18) à filosofia do sistema teosófico que venerava divindades que habitavam nas estrelas.

b) A alusão em 2.18 ao "culto dos anjos" parece vir de judeus sectários de Colossos com uma angelologia altamente desenvolvida e pouco ortodoxa. O que sustenta essa teoria sobre sectários judeus são as descobertas das cavernas de Qumrã, onde se encontrou relatos de um judeu desta época que praticava rituais tipicamente judaicos mas com características altamente individualistas que adotavam crenças e padrões ebionitas judaicos-cristãos com uma angelologia diferenciada. Paulo combate tal culto em 2.15 e 2.20.

c) Havia uma espécie de doutrina platônica que separava o Deus supremo da criação. Para contato com esse Deus é preciso que o homem se liberte da influência maligna e das coisas materiais. Juntamente com esse platonismo os Colossenses eram submetidos a duas rotas para a "libertação" do mal: Uma era a negação de tudo que era considerado carnal e material, já que para este grupo gnóstico o corpo possui tendências lascivas, instintos e apetites (que fazem parte da matéria) que são prejudiciais e atrapalham o homem na sua busca por salvação. Nasce então em Colossos a tendência ao ascetismo rigoroso, onde o homem se privava de alimentação, desejos e até mesmo da relação sexual entre marido e mulher. Diante disso Paulo adverte os colossenses a não se privarem para aquilo que já não mais serve (2.21-23). Paulo alerta que tais práticas são usadas para preparar o iniciado a entrar num estado de transe para conceber visões celestiais (2.18) e que são nada mais que conhecimento vão e que servem apenas, mesmo parecendo contraditório, para enfatizar as obras da carne. Tais práticas parecem ter ligação com o legalismo judaico já que indícios são encontrados em 2.11, 16, 21-22.

Já a outra rota para "libertação" do mal não se destaca tanto na epístola, mas estudiosos conseguiram destacá-la. Esta prega que como o corpo é indiferente às questões religiosas não precisava de observâncias a ele. Logo abria uma espécie de libertinismo, dando a liberdade incondicional para seus adeptos para que realizem todos os desejos que acharem necessários. Essa rota para a suposta "libertação" pode ser vista sendo combatida por Paulo na passagem do capítulo 3.5-11. Sendo assim, Paulo busca um equilíbrio na sociedade colossense.

Conclui-se então que a região da Frígia era uma região que possuía tanto um contato com o judaísmo de livre pensamento (da Dispersão), quanto ideias especulativas das religiões de mistério gregas buscando uma relação entre si.

Paulo e seu objetivo

Após entender, mesmo que de forma simples, a doutrina que permeava os ensinos em Colossos, podemos então ter idéia da dimensão e propósito do ensino de Paulo aos colossenses em sua epístola. Eis a seguir um resumo das principais posições do apóstolo:

a) Seu ensino tem uma ênfase cristológica. Para Paulo a falsa doutrina corta a comunhão do homem com Deus. Cristo é que é o intermediador entre ambos. Cristo é o cabeça da igreja (2.19). Para Paulo o erro é tanto teológico, por colocar Cristo como mais um mediador como os demais, quanto prático, por despertar a incerteza religiosa ao dizer que Cristo não possui a “plenitude da vida” (2.9-10).

Paulo busca trabalhar a inter-relação entre o Senhor e a Igreja. Em 1.15-20 Paulo demonstra que Deus é o agente cósmico da Criação (1.15-17) e quem restaura a harmonia entre Ele mesmo e sua Criação (1.18-20). Portanto para o apóstolo não é possível qualquer intervenção entre Cristo e Deus, e entre Cristo e o mundo e a Igreja.

A obra reconciliadora de Cristo em Colossenses destaca Cristo como responsável pela existência de tudo (1.16) e como vitorioso após sua morte e ressurreição, tornando-se o soberano sobre todas as hostes demoníacas, angelicais e poderosas do mundo (2.10). Sua ressurreição o tornou preeminente (1.18) tendo ganho a vitória sobre todos os poderes malignos que o homem do I século mais temia (2.15). Logo Paulo mostra que Deus, por mais que seja santo e/ou espiritual, não é inacessível como o gnosticismo pregava e que Jesus, apesar de sua santidade, também foi homem, não negando sua matéria; seu corpo.

b) Paulo apela para a separação do “ministério dos homens” (2.22) do ministério da verdade” (2.6ss). Após traduzir o grego para as línguas da atualidade perdeu-se a qualidade nas palavras de Paulo. Há um jogo de significados nestas quando Paulo as emprega. Paulo usa Paradosis (2.8) e Didaskalia (2.22) para se referir aos ensinos humanos e ParelabeteParadidonai (p.e. 1 Co 11.23, 15.3) e Edidachthête (2.7). Paulo demonstra que por mais que haja sabedoria nos ensinos ocultos e gnósticos eles são apenas ensinos humanos em comparação com o verdadeiro ensino que vem de Cristo.

c) O apóstolo Paulo vê os tabus dietéticos e práticas ascéticas como uma ameaça à carta magna do cristianismo que é a liberdade do cristão que está na morte e ressurreição de Cristo. Para Paulo a verdadeira qualidade do cristão é viver sem o embaraço de regras ou regulamentos feitos por homens (2.22), os quais pertencem à sombra do que havia de vir e que agora se torna passado (2.17).

Paulo coloca que a verdadeira “religião” é Cristo e o motivo principal da moral é uma experiência de morte e ressurreição (simbolizada numa morte de fé no batismo) em que a velha natureza morre para o próprio-eu e para o pecado, e a nova natureza é recebida como uma dádiva de Deus (2.11-13; 3.9-12). Essa nova humanidade é Cristo-vivendo-no-Seu-corpo, a Igreja, que fornece a definição da moralidade como também o poder motivante de se viver como uma família de Deus. Os conselhos de Paulo no capítulo 3 exortam os cristãos a buscarem uma auto-disciplina verdadeira e uma relação verdadeira entre os relacionamentos na igreja e na sociedade, que são chamados “em um só corpo” (3.15), sendo que o amor dá coerência a todas as qualidade éticas que caracterizam esse novo estilo de vida (3.11, 12).
Sobre a autenticidade da carta

Fica claro na epístola que Paulo não possuía com os colossenses a mesma intimidade que ele tinha com os gálatas. Paulo era mais íntimo destes uma vez que ele fundou a igreja e nutria uma grande responsabilidade por eles (Gl 1.6; 4.12-20) o que lhe permitia um diálogo mais doutrinário e ríspido, com exortações severas e posicionamento rígido. O que não é o mesmo com a igreja de Colossos, já que Paulo os conhecia apenas de longe. Mas nem por isso Paulo deixou de ensinar aos colossenses a doutrina cristã. Contudo o apóstolo se deteve apenas em combater a falsa doutrina, nada mais.

Data da epístola

Não se tem muita precisão sobre quando a carta foi escrita já que não se tem conclusões do lugar onde Paulo esteve preso. Se foi em Roma o local de sua prisão tem-se uma data no início dos anos 60. Mas se for outra cidade provavelmente a data será no final dos anos 50.

Esboço de Colossenses

I- Introdução 1.1-14
  A. Saudação 1.1-2
  B. Oração de louvor pela fé dos colossenses 1.3-8
  C. Oração de petição pelo crescimento deles em Cristo 1.9-14
II- Apresentação da Supremacia de Cristo 1.15 - 2.7  A. Na Criação 1.15-17
  B. Na Igreja 1.18
  C. Na Reconciliação 1.19-23
  D. No Ministério de Paulo1.24 - 2.7
III. Defesa da Supremacia e Suficiência de Cristo 2.8-23
  A. Contra a Falsa Filosofia 2.8-15
  B. Contra o Legalismo 2.16-17
  C. Contra o Louvor aos Anjos 2.18-19
  D. Contra o Ascetismo 2.20-23
IV-  Supremacia de Cristo exigida na Vida Cristã 3.1 - 4.6
  A. Em Relação a Cristo 3.1-8
  B. Em Relação à Igreja Local 3.9-17
  C. Em Relação à família 3.18-21
  D. Em Relação ao Trabalho 3.22 - 4,1
  E. Em Relação à Sociedade Não-Cristã 4.2-6
V- Conclusão 4.7-18
  A. Companheiros de Paulo 4.7-9
  B. Saudações Finais 4.10-15
  C. Exortações e Bênção Finais 4.16-18

A epístola de Colossenses para a atualidade
Os "falsos mestres" colocaram uma barreira entre o povo de Colossos e Deus. E essa barreira só era vencida através do ascetismo exagerado e/ou pela entrega à sorte permitindo a libertinagem, porém esta última não foi tão forte quanto a primeira. Diante disso Paulo ressalta a figura de Cristo como o mediador entre o homem e Deus, explicando que Ele está acima de toda a criação. Ele é destacado como o cabeça da Igreja pelo derramar de seu próprio sangue em favor de todos (1.15-20). Essa combinação de explicações deixa claro que qualquer tentativa meritória para se alcançar Deus, tal como o ascetismo, é vã, sem conclusões e tola.

Em algumas igrejas cristãs são encontrados alguns tipos de ascetismos que são extremamente exagerados. Algumas pessoas deixam de comer por dias, outras sem ingerir qualquer tipo de líquido, e algumas cometem até mesmo o suicídio social, se retirando por completo da teia social que permeia a todos. A prática disso ainda não é o problema, no sentido cristão da coisa. O problema é quando tais práticas buscam uma justificação ou pagamento pela salvação alcançada. A carta de colosenses é contra isso.

Outro problema é quando se tem a ideia de que o corpo humano é a raiz do mal, ou quando o corpo humano (carne) é impura ou o próprio mal. É nessa epístola que se encontram passagens que vão contra tais pensamentos. Primeiro é o fato de Paulo dizer que Cristo veio como homem (1.15-20) e é neste que se encontra toda a sabedoria e conhecimento (2.3). E é em Cristo que os crentes recebem a plenitude (2.10) ainda em vida, ou seja, na carne. O maior sacrifício está no morrer para ele (2.20) e ressuscitar com ele (3.1). Logo, o que se destaca é o amor de Cristo, ainda em carne, para com os seus, chegando até derramar seu próprio sangue.

Ainda nos dias de hoje, apesar do crescente ceticismo que permeia a sociedade ocidental, existem igrejas e, em especial no Brasil, que ainda acreditam que poderes malignos são, ou mais fortes, ou do mesmo nível dos poderes divinos. A demonstração disso pode ser vista nos teatros feitos pelos evangelistas do Brasil onde a figura de Satanás está em pé de guerra com Jesus, onde aquele é derrotado por este após sua morte na cruz. Sabe-se que essa ideia é, de certa forma, inconsciente no meio evangélico brasileiro, mas também é inegável. Sabe-se que Jesus sempre foi o mesmo; é imutável e acronológico (fora do tempo). É diante dessa ideia de super-poderes das trevas que Paulo destaca a supremacia e preeminência de Cristo sobre TODA a criação, desde o pó, passando sobre anjos e demônios, até a humanidade.

O fato de Paulo não conhecer os colossenses em carne e osso (2.1) serve para mostrar o quanto é importante enxergar que todos os crentes formam uma única igreja. Numa era onde o individualismo e o sistema tribal tem se instalado, a releitura da epístola se faz necessária. Essa ênfase que Paulo dá à unidade da igreja fica também as ricas instruções de Paulo para esposos e esposas, filhos e pais, e escravos e senhores (3.18 - 4.1) para o aprimoramento da unidade. Essas orientações se dividem em dois grupos: Família e Trabalho. E são esses dois grupos que mais têm sofrido degradações nos últimos tempos. A família é algo que já não mais tem valor na sociedade pós-moderna. E o trabalho já não é respeitado nem pelos patrões, que exigem além do possível de seus funcionários, e nem pelos funcionários, que desonram sua posição de empregado se tornando um baderneiro, ladrão ou irresponsável quando este defrauda seu local de trabalho.

A degradação da família e do trabalho tem a ver com as filosofias de vida presentes nos dias de hoje. Sempre em todas as gerações cristãos sofreram, sofrem e sofrerão tentações em adequarem ao novo sistema pregado pela nova ordem do mundo. E assim como foi na época da epístola de Colossenses, assim também deve ser hoje. Todos não devem desprezar os ensinos de Paulo quando este diz que nenhuma filosofia venha tomar lugar de Cristo. É sempre oportuna a advertência paulina sobre "filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo" (2.8). Ao mesmo tempo deve-se dar ouvidos às advertências sobre práticas religiosas que desviam a atenção, a observância de festas religiosas que detraem daquilo que é fundamental (2.16) e o costume de fazer das regras a essência da religião (2.20-21). Essas práticas geram uma humildade falsa e na realidade promovem a falta de espiritualidade (2.18). Nada pode compensar a perda de contato com a Cabeça da Igreja (2.19) que é Cristo Jesus, Nosso Senhor.
Apóstolo. Capelão/Juiz. Mestre e Doutor em Ciências da Religião Dr. Edson Cavalcante

domingo, 2 de dezembro de 2018

A IGREJA DE COLOSSOS


                                                         A IGREJA DE COLOSSOS
Cuidado com as filosofias mundanas, sabedoria só em Cristo Jesus

Entre as cartas inspiradas que o apóstolo Paulo escreveu enquanto estava encarcerado em Roma encontra-se aquela dirigida aos cristãos em Colossos. Embora seja possível que Paulo nunca tenha visitado Colossos, tomou vivo interesse no bem-estar espiritual da igreja ali.

É bem provável que tenha sido Epafras, colaborador de Paulo, quem fundou ou ajudou a fundar esta igreja. E foi evidentemente o relato trazido por Epafras que motivou Paulo a escrever aos colossenses. Sua carta dá a entender que a igreja ia muito bem. Mas, ao mesmo tempo, estava exposta a certos ensinos falsos, contra os quais Paulo queria fortalecer seus irmãos cristãos.

A carta aos colossenses é muito similar à carta de Paulo aos efésios. De fato, não há outras duas cartas de Paulo que mostrem tanta similaridade. Não só cerca de 78 versículos, dos 155 existentes em Efésios, são muito similares ou até mesmo idênticos aos encontrados em Colossenses, mas também o arranjo da matéria é similar. Típico é o conselho de Paulo, de cantar louvores; é quase idêntico nestas cartas, e esse conselho não é encontrado em nenhuma outra carta dele. (Efé. 5:19; Col. 3:16) De modo similar, apenas em Efésios 4:25 e em Colossenses 3:9 fala Paulo tão fortemente contra a mentira dentro da igreja.

Paulo inicia sua carta aos colossenses, assim como faz em muitas das cartas, por amorosamente elogiá-los. Fala sobre a , a esperança e o amor que eles têm, o que faz recordar 1 Coríntios 13:13, onde estas três qualidades são mencionadas juntas. Paulo e Timóteo ‘não cessaram de orar por eles, para que ficassem cheios de conhecimento exato, sabedoria e compreensão espiritual, a fim de agradar plenamente a Deus’. Paulo alegra-se também por causa da constância e da firmeza deles na fé. — Col. 1:3-12, 23.

A PRIMAZIA DE CRISTO
Ter a primazia significa vir em primeiro lugar, e Paulo passa a mostrar que isto certamente se dá no que se refere a Cristo. Quanto à sua existência, ele é o primogênito de toda a criação. Quanto à sua pessoa, ele é a própria imagem do Deus invisível. Todas as outras coisas, quer visíveis, quer invisíveis, vieram à existência por intermédio dele. — Col. 1:15-18.

Além disso, não é outro senão Cristo quem livrou os cristãos do mundo escuro de Satanás para o reino espiritual de Cristo. Em que base? Na base do sacrifício resgatador de Cristo, que concede aos cristãos o perdão de pecados. (Col. 1:13, 14) Paulo enfatiza mais duas vezes o papel importante que Cristo desempenha nisso. Deus achou bom usar Cristo para “reconciliar novamente todas as outras coisas consigo mesmo, por fazer a paz por intermédio do sangue que ele derramou na estaca de tortura”. E, novamente: ‘A todos vós, os que outrora estáveis apartados e éreis inimigos de Deus, porque as vossas mentes se fixavam nas obras iníquas, Deus reconciliou novamente, mediante o corpo carnal de Cristo, por intermédio damorte deste.’ — Col. 1:19-22.

A primazia de Cristo é também vista em que ele é a cabeça da igreja de Deus, assim como ele era o primogênito dentre os mortos. Sim, Cristo é o primeiro em todas as coisas. Diz-se que mora nele toda a plenitude, por Cristo suprir todo o necessário; não há necessidade de recorrer a ninguém mais em busca de orientação e ajuda. Por causa daquilo que ele é e daquilo que ele fez, todas as coisas, quer no céu, quer na terra, serão reconciliadas com Deus. Devido ao seu sacrifício, o segredo sagrado, que por muito tempo ficou escondido, foi agora divulgado, sendo que inclui a esperança de os gentios participarem da glória celestial de Cristo. Outrossim, em Cristo estão contidos todos os tesouros de sabedoria e conhecimento. — Col. 1:24 a 2:5.

REFUTADOS OS ERROS RELIGIOSOS
Assim como há similaridade entre muitos versículos de Colossenses e os encontrados na carta de Paulo aos efésios, há também notáveis diferenças, indicando que, em cada caso, Paulo pensava em determinada série de condições ou fatos. Uma destas cartas não copia simplesmente a outra. Em Efésios, Paulo cita diretamente as Escrituras Hebraicas, mas não o faz em Colossenses, assim como tampouco o faz na sua carta aos filipenses. Por outro lado, na sua carta aos colossenses, Paulo refuta certos ensinos falsos, o que não achou necessário fazer nas cartas que escreveu da prisão às outras duas igrejas.

Na antiga Colossos, parece ter havido filósofos gregos, versados nas coisas do mundo, bem como seguidores do judaísmo e religiosos fanáticos. Paulo adverte contra todos estes três grupos. Primeiro: ‘Visto que estão ocultos em Cristo todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento’, por que prestar atenção a estes filósofos gregos, versados nas coisas do mundo? Ele aconselha: ‘Acautelai-vos, estai em guarda, não deixeis que vossa mente seja levada cativa por filosofias vãs e enganosas, por tradições de homens, que se baseiam nas coisas elementares do mundo, e não em Cristo.’ — Col. 2:3, 8.

A seguir, advertindo contra os judaizantes, Paulo explica que Deus, à base do sacrifício de Cristo, tirou do caminho a lei manuscrita de Moisés. “Portanto”, diz ele, “nenhum homem vos julgue”. Quanto a quê? “Pelo comer ou pelo beber, ou com respeito a uma festividade ou à observância da lua nova ou dum sábado; pois estas coisas [eram apenas] sombra das coisas vindouras, mas a realidade pertence ao Cristo.” — Col. 2:13-17.

Finalmente, combatendo o fanatismo espírita dos antigos frígios, Paulo adverte contra aqueles que se agradam da humildade insincera e da adoração de anjos — quer professando adorar como os anjos fazem, quer realmente adorando os próprios anjos. Tal humildade hipócrita estabelece regras estritas a respeito de coisas materiais: “Não manuseies, nem proves, nem toques.” Todas essas coisas podem envolver um tratamento severo do corpo, mas “não são de valor algum em combater a satisfação da carne”. (Col. 2:18-23) Quão veraz isso é pode ser visto nos registros da prevalência do homossexualismo nas instituições religiosas. Seus membros praticavam o ascetismo, mas eram muito faltosos na moralidade sexual, o que traz à mente as palavras de Jesus, sobre coar um mosquito, mas engolir um camelo! — Mat. 23:24.

CONSELHO SOBRE A CONDUTA
De modo que Paulo tratou primeiro destes assuntos doutrinais; com isso ele equipou os cristãos colossenses daquele tempo, assim como nos equipa hoje, para lidar com erros ou resistir a eles. Daí, aconselhou a eles e a nós sobre nosso coração e nossa conduta. Para termos a conduta correta, precisamos fixar nossas afeições nas coisas espirituais, nas coisas de Cristo, e amortecer nossas decaídas inclinações à fornicação, à impureza moral, ao apetite sexual desenfreado e aos desejos prejudiciais, que na realidade são uma forma de idolatria, visto que se interpõem entre o cristão e seu Deus. A repetida menção que Paulo faz da imoralidade sexual parece indicar que Colossos, lá naquele tempo, era tão depravada sexualmente como é este mundo moderno. — Col. 3:1-5.

A conduta cristã exige também que afastemos toda a ira, linguagem ultrajante e conversa obscena. E, naturalmente, como cristãos, não podemos mentir uns aos outros. Pelo empenho que fazemos para melhorar nossa conduta, nós nos despojamos de nossa velha personalidade e nos revestimos da nova personalidade, que é feita nova por meio do conhecimento exato da vontade e do propósito de Deus, segundo a imagem de Deus e de Cristo. — Col. 3:6-11.

A conduta cristã tem também seu lado positivo. Significa revestir-nos de terna afeição, compaixão, humildade, paciência e brandura, estando prontos para perdoar-nos liberalmente uns aos outros, assim como Deus nos perdoou liberalmente. Devemos revestir-nos de amor, porque este é o perfeito vínculo de união, e deixar que a paz domine nosso coração, sendo sempre muito gratos a Deus. — Col. 3:12-17.

OBRIGAÇÕES FAMILIARES E OUTRAS
A seguir, Paulo especifica as obrigações dos membros da família. As esposas devem estar em sujeição ao seu marido. Os maridos, por sua vez, devem continuar a amar sua esposa e ‘não se irar amargamente com ela’. Os filhos devem obedecer aos pais “em tudo”. Também, aconselha-se aos pais: “Não estejais exasperando os vossos filhos, para que não fiquem desanimados.” — Col. 3:18-21.

Quanto aos escravos ou aos empregados, devem ser obedientes aos seus amos ou patrões, como se tentassem agradar a Deus. E, “o que for que fizerdes, trabalhai nisso de toda a alma como para o SENHOR, e não como para homens”. Por quê? Porque Deus, no tempo devido, recompensará tal serviço sincero. Por outro lado, os amos ou patrões devem continuar a tratar seus escravos ou empregados com justiça, porque eles também têm de prestar contas ao Amo Cristo, que está nos céus. — Col. 3:22 a 4:1.

Daí, chegando ao fim de sua carta, Paulo nos admoesta a perseverar em oração, “permanecendo despertos nela com agradecimento”. E ele pede que os colossenses se lembrem dele nas suas orações, para que Deus lhe dê a oportunidade de divulgar o segredo sagrado e de fazer isso assim como devia. — Col. 4:2-4.

Assim como na sua carta aos efésios, Paulo aconselha: “Prossegui andando em sabedoria para com os de fora, comprando para vós todo o tempo oportuno.” Devemos deixar nossa linguagem ser graciosa, “temperada com sal”, quer dizer, feita saborosa, “para que [saibamos] como responder a cada um”. — Col. 4:5, 6.

Depois de toda esta admoestação e instrução, Paulo volta-se para assuntos puramente pessoais, mencionando vários cristãos por nome. Tíquico e Onésimo levarão à Igreja esta carta e lhe contarão como Paulo está passando. Diversos dos associados com Paulo também enviam saudações. Especialmente Epafras ora por eles, para que, ‘por fim, estejam de pé, completos e com firme convicção, em toda a vontade de Deus’. Todos nós, certamente, devemos orar de modo similar uns pelos outros. — Col. 4:7-17.

Que belo conselho e instrução contém esta carta de Paulo aos colossenses! Embora, em muitos sentidos, as cartas aos colossenses e aos efésios possam ser bastante similares, não há dúvida de que cada uma é distinta e endereçada a determinada igreja, com sua própria situação e problemas. Embora alguns eruditos bíblicos gostem de especular sobre quais destas cartas Paulo escreveu primeiro, isso é de pouca importância. O que importa é que Deus inspirou Paulo a escrever ambas.

Apóstolo. Capelão/Juiz. Mestre e Doutor em Ciências da Religião Dr. Edson Cavalcante

sábado, 1 de dezembro de 2018

SEDES SANTOS


                                                                      SEDES SANTOS
Hebreus 12.14
“Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor.”

No capítulo 12 da carta aos Hebreus, a santificação ocupa posição de proeminência. Deve ser priorizada, almejada e perseguida: “Segui a paz com todos e a santificação” (Hb 12.14). Há, aqui, a ideia de algo que deve ser buscado com firmeza de propósito, com determinação. Faz parte dos planos eternos de Deus que cada filho Seu alcance a santificação e, para isso, o próprio Deus dedica-Se à educação deles: “É para disciplina que perseverais (Deus vos trata como filhos); pois que filho há que o pai não corrige?” (Hb 12.7).
Esse princípio é repetido no verso 10 deste capítulo: “Deus, porém, nos disciplina para aproveitamento”. Santificação é o meio que Deus usa para conduzir Seus filhos pelos caminhos da fé, preparando-os para receber graça sobre graça: “Santificai-vos, porque amanhã o Senhor fará maravilhas no meio de vós” ( Js 3.5).

I. Exortação à santificação (Hb 12.12-17)

Santificação é o processo de modelagem pelo qual a essência da imagem e semelhança de Deus, desonrada pelo pecado, vai sendo regravada no coração do homem. A santificação é operada pelo Espírito Santo de Deus e leva em conta a renúncia do “eu”, desejos e vontades da carne, pela decisão incondicional de seguir a Cristo.
Numa direta conexão com o parágrafo anterior, que tratou dos atos disciplinares de Deus, a carta apresenta, agora, os aspectos pertinentes ao esforço do cristão. São palavras de encorajamento que, também, trazem à memória promessas extraídas de porções proféticas. O objetivo do autor é levar seus leitores a uma busca constante e diligente (esforço pessoal) do padrão divino de espiritualidade (santidade), que se opõe aos fracassos e derrotas da carne. São conselhos que devem ser observados.

1. Não se deixe abater pelo desânimo (Hb 12.12)

Usando Isaías 35.3, o autor da carta aos Hebreus traz à memória as bênçãos do reino restaurado, prometido àqueles que permanecem firmes. Tanto o profeta Isaías como o autor dessa carta têm em mente a eficácia da vigilância espiritual – santificação (Is 35.4). Mãos descaídas e joelhos trôpegos reproduzem uma imagem negativa, sugerem desalento e ruína, inadequados àqueles que têm a promessa da vitória em Cristo (Rm 8.37; 1Co 15.57-58).

2. Não pegue atalhos (Hb 12.13)

A exortação aqui é contra os descaminhos que conduzem à perdição. Eles são ameaça à vida espiritual. O caminho que conduz à cidade eterna não tem atalhos ou desvios, é caminho reto por onde pode andar com segurança até mesmo “o manco”. “Existem ‘mancos’ entre as fileiras dos filhos de Deus. Eles são especialmente ameaçados na vida espiritual” (Fritz Laubach, p.212).

3. Siga a paz (Hb 12.14)

Esforçar-se em prol da paz é dever de todos. Compartilhar com o próximo a paz que temos em Deus faz parte do processo da nossa santificação (cfRm 12.17-20). A paz que domina o coração do cristão deve, também, guiar o seu relacionamento interpessoal. “Aparta-te do mal” (Sl 34.14).

4. Busque a santidade (Hb 12.14)

Santificação é separação do pecado para Deus; sugere pureza de alma, consagração, desvio de contendas, da imoralidade, da incredulidade e de qualquer tipo de idolatria; é indispensável para um viver vitorioso e agradável a Deus; deve ser buscada constantemente, pois só a santificação corrige as imperfeições geradas pelo pecado e leva o homem a participar da própria santidade de Deus: “… Deus, porém, nos disciplina para aproveitamento, a fim de sermos participantes da sua santidade” (Hb 12.10).

5. Evite a contaminação (Hb 12.15)

O autor associa amargura com contaminação. A amargura corrompe, começa dentro da pessoa e vai contaminando o ambiente todo. Santificação pressupõe vigilância pessoal e propósito firme para o combate a qualquer raiz que possa produzir amargura (cfDt 29.16-19). O antídoto, aqui, é o apropriar-se da graça: “ninguém seja faltoso, separando-se da graça”.

6. Cuidado com as escolhas (Hb 12.15-18)

Aquele que se desvia da graça é comparado a Esaú, que trocou seu direito de primogenitura por um repasto. “Sua estultícia em trocar seu privilégio como filho primogênito veio a ser um exemplo de todos aqueles que colocam vantagens materiais ou sensuais antes da sua herança espiritual” (Guthrie, p.242). Segundo alguns comentaristas, a palavra “profano” pode ser entendida como irreligioso – alguém que caminha na contramão da espiritualidade.
A terrível escolha de Esaú não podia ser desfeita: “não achou lugar de arrependimento” (Hb 12.17). Escolhas erradas podem deixar marcas irreversíveis naqueles que se apartam da “graça de Deus”.]

II. O Sinai terreno e a Sião celestial (Hb 12.18-24)

Nesse parágrafo, o autor retoma o tema principal: a supremacia da nova aliança. Os elementos físicos e estrondosos percebidos na outorga da lei, no Sinai, dão lugar ao “sangue da aspersão que fala coisas superiores”, no monte Sião, a Jerusalém celestial, símbolo do evangelho da graça, que nos compromete com a santificação.

1. As marcas do Sinai terreno (Hb 12.18-21)

Não obstante reverente e majestosa, a revelação divina no Sinai expressa a imperfeição e a limitação da antiga aliança, e os efeitos assustadores que provocava nas pessoas.
a) Percebidas através dos sentidos físicos (Hb 12.18-19)
A outorga da lei foi acompanhada por sinais palpáveis aos homens. O pano de fundo dessa porção foi extraído dos relatos de Êxodo 19.12-25; 20.18-21 entre outros. A ideia do autor é trazer à memória os aspectos físicos que cercavam a antiga aliança.
b) Caracterizadas pelo medo (Hb 12.20-21)
A natureza inspiradora de temor daquele evento fala por si mesma. As manifestações visíveis de Deus eram aterradoras: o fogo, as trevas, a tempestade e o clangor da trombeta caracterizavam o juízo divino, impossível de ser suportado pelos homens. A citação: “pois já não suportavam o que lhes era ordenado” (Hb 12.20) dá ideia do pavor que o espetáculo glorioso proporcionava. O autor chega a interpretar os sentimentos do próprio Moisés: “Na verdade, de tal modo era horrível o espetáculo, que Moisés disse: Sinto-me aterrado e trêmulo” (Hb 12.21).
c) Protagonizadas por um Deus distante (Hb 12.20)
Na antiga aliança, o relacionamento de Deus com o Seu povo é marcado pelo distanciamento, pela separação, a exemplo da proposta do Santo dos Santos. O texto de Êxodo 19, citado pelo autor, mostra o método usado por Deus para relacionar-Se com a Sua criação na antiga aliança: “Marcarás em redor limites ao povo, dizendo: Guardai-vos de subir ao monte, nem toqueis o seu termo; todo aquele que tocar o monte será morto” (Êx 19.12-13).

2. O caráter distintivo da nova aliança – Sião celestial (Hb 12.22-24)

Em profundo contraste com a antiga, a nova aliança enfatiza o acolhimento divino expresso na graça disponível aos que creem. Não há mais lugar para o medo nem para o distanciamento de Deus. A santidade de Deus permanece inabalável; todavia, na nova aliança, é cercada de abundante graça.
a) Percebido através dos sentidos espirituais (Hb 12.22)
A proximidade com Deus dá o toque espiritual que contrapõe o Sinai, o lugar da lei, com a Jerusalém celestial, a cidade do Deus vivo, o lugar da redenção. A linguagem usada dá um tom vívido de espiritualidade. Não há nada terreno ou físico que possa sugerir alguma limitação ou imperfeição à nova aliança. A ideia é dar ênfase a esse caráter espiritual da nova aliança.
b) Caracterizado pela alegria (Hb 12.22-23)
Não estão mais em foco as demonstrações aterrorizantes do Sinai. Deus mudou a forma. A nova aliança se caracteriza por uma assembleia festiva, alegre e encorajadora. O contexto sugere paz e harmonia. Os adoradores são estimulados a uma adoração verdadeira e espontânea. O texto sugere um ambiente de profunda comunhão e grande gozo, resultantes dessa exuberante festa espiritual.
c) Protagonizado por um Deus acessível (Hb 12.24)
É oportuno lembrar, aqui, uma das mais preciosas citações de Jesus: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mt 11.28). Jesus é o Deus Filho, o Mediador da nova aliança, Aquele que bondosamente chama as pessoas para O seguirem, andarem com Ele e aprenderem Dele. Em Cristo, um “novo e vivo caminho” nos aproxima de Deus (Hb 10.19-22). O acesso a Deus agora é possível porque o sangue da nova aliança justifica; enquanto, na antiga aliança, o sangue de Abel acusava.

3) Atenção à voz de Deus (Hb 12.25-29)

A última seção deste capítulo começa com uma advertência solene: “Tende cuidado, não recuseis ao que fala” (Hb 12.25). Não sejam tais como aqueles que “suplicaram que não se lhes falasse mais” (Hb 12.19). O sangue de Cristo é, agora, a voz de Deus. Nossa responsabilidade é infinitamente maior. Uma vez que somos parte da nova aliança, firmada no evangelho da graça, que fala de um reino eterno e inabalável, espiritual e não terreno, devemos ter ouvidos atentos Àquele que fala coisas superiores.
a) Deus ainda é o mesmo (Hb 12.25)
Aquele “que dos céus nos adverte” e Aquele que “os advertia sobre a terra” (Hb 12.25) são os mesmos. A substituição dos estrondos pela sublimidade da graça não indica que Deus Se tornou condescendente com o pecado. Na verdade, a advertência celestial exige maior responsabilidade do homem. A severidade de Deus transcende o tempo e a geografia do universo. Se os israelitas não escaparam devido à sua incredulidade, muito menos nós escaparemos, especialmente porque temos a plena revelação de Cristo e Sua obra mediadora. Deus muda o método, jamais Seus princípios. Há, neste verso 25, uma síntese da exortação já comunicada em Hebreus 2.1-4.
b) A inabalável aliança exige santidade (Hb.26-27)
Os fenômenos físicos que acompanhavam a antiga aliança caracterizavam coisas que podem ser abaladas, coisas ligadas ao que é terreno, transitório e passageiro, que, segundo o autor desta carta, serão “ainda uma vez por todas” abaladas. Está em foco aqui um acontecimento vindouro, acompanhado de estrondos sobrenaturais (cf2Pe 3.10-13). Com isso em mente, ele transmite a ideia da superioridade da nova aliança, definitiva e inabalável, “autenticada” pelo “sangue da aspersão”, o sangue do Cristo vivo que “ontem e hoje, é o mesmo e o será para sempre” (Hb 13.8).
O autor retoma o tema da santificação quando fala da “remoção dessas coisas abaladas”: um aviso e um apelo à espiritualidade. A santificação deve ser o alvo e o estilo de vida dos cristãos (cfHb 12.14), que os mantém ligados no que é próprio do mundo perene (2Co 4.18; 1Pe 1.13-16).
c) No reino espiritual, o essencial é gratidão e serviço (Hb 12.28-29)
Na carta aos Efésios, Paulo declara que Deus nos chamou “para louvor da glória de sua graça” (Ef 1.6), ou seja, declara a essencialidade do serviço cristão: verdadeiros adoradores. Desta forma, o autor da carta aos Hebreus destaca aspectos desse serviço de adoração:
 – Agradável
Pois deve ser recebido, aceito diante de Deus;
– Reverente
Pois devemos reconhecer nossa indignidade diante da majestade e da santidade de Deus;
– Com santo temor
Pois o caráter reto e justo de Deus jamais inocenta o culpado (Na 1.3). “Nosso Deus é fogo consumidor” (Hb 12.29).

Conclusão

A santificação está no centro da vontade de Deus em todos os tempos, para todo aquele que crê (1Ts 4.3,7). É a própria transformação espiritual e moral que ocorre no salvo que o credencia como adorador e servo. E, conforme escreveu o apóstolo Paulo, é também objeto de promessa, e a fidelidade de Deus há de completá-la (Fp 1.6). Sem se deixar vencer pelo afrouxamento ou cansaço espirituais, sem fazer concessões ao pecado e com disposição para aceitar e entender a disciplina proposta por Deus, o cristão poderá alcançar a paz e a santificação, que o capacita a experimentar a própria natureza de Deus (cfHb 12.14).
Apóstolo. Capelão/Juiz. Mestre e Doutor em Ciências da Religião Dr. Edson Cavalcante