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sábado, 9 de janeiro de 2016

VEIO A MIM A PALAVRA DO SENHOR...


                                        VEIO A MIM A PALAVRA DO SENHOR...
"E não te pouparei, nem terei piedade de ti; mas eu te punirei

por todos os teus caminhos, enquanto as tuas abominações

estiverem no meio de ti; e sabereis que eu sou o Senhor. " (Ez 7.4)

Como alguém pode reagir quando a sua vida sofre uma mudança brusca? Quando muda para melhor, é mais fácil decidir. Mas, e quando a mudança é para pior, envolvendo um rebaixamento de salário, mudança de padrão de vida, desemprego, perda de familiares etc.? Ezequiel foi um homem que enfrentou momentos em que a vida inteira foi desorganizada em função de mudanças políticas, sociais, econômicas e espirituais. Em momentos como esses, só Deus é quem pode sustentar os seus filhos.

Ezequiel, filho de Buzi, era um sacerdote que foi levado junto com mais dez mil judeus para a Babilônia por volta de 597 a.C, quando Nabucodonozor tomou Jerusalém depois de um cerco. Junto com os melhores de Judá (II Rs 24.14). Ezequiel foi tirado do templo e teve que marchar para o exílio. A sua chamada veio no quinto ano do exílio, ou cerca de 593 a.c. Não há muito a seu respeito fora do próprio livro. Ele era casado e sua esposa morreu na ocasião da queda de Jerusalém (24.18). Era um homem de influência e isso o ajudou na sua autoridade como profeta (cf. 8.1; 20.1).

O ministério de Ezequiel foi todo na Babilônia e as freqüentes menções do rio Quebar mostram que foi um ministério específico aos exilados. Jeremias teve o seu ministério junto aos que ficaram na Judéia e Ezequiel junto aos que foram deportados para a Babilônia. Por que um profeta no Exílio? Porque Deus queria manter o povo fiel às suas revelações e à sua lei, para que um remanescente justo e fiel fosse mantido para que cumprisse os seus propósitos redentores.

O MUNDO DO PROFETA

Quando Ezequiel foi levado para o exílio, tinha uns vinte anos de idade e, com isso, pôde ver o declínio do império assírio, o breve período de dominação egípcia sobre Judá e o crescimento do poder babilônico. Ezequiel viveu na época dos seguintes reis: Josias, Jeoacaz,Jeoaquim, Joaquim e Zedequias. Assim vemos que ele é contemporâneo de Jeremias.

A época é de perturbações políticas, seguidas de insegurança, pois a vida não oferecia nenhuma realização. De uma nação livre a escrava de um domínio estrangeiro. Agora ele tinha que enfrentar uma situação completamente nova: dominado e 'em terra estranha. Um exilado, falando a exilados. Deus fala no exílio! As profecias de Ezequiel são muito bem colocadas historicamente. Ele coloca as datas em cada pregação, indo de 593 a.C. até 573 a.c. Ele é tão cuidadoso que coloca até dia e mês ( 1.1,2; .8.1; 20.1; 24.1; 26.1; 29.1 etc.).

Teologia DE EZEQUIEL

Ezequiel contém profundas verdades teológicas. A sua compreensão de Deus é magnífica. Deus é soberano e isto se revela inclusive na catástrofe e no desespero. O povo estava no exílio exatamente porque Deus assim o determinou por sua vontade. Deus é onipresente e pode ser cultuado em qualquer lugar. Essa concepção é revolucionária, principalmente para quem estava longe de sua terra e longe do templo sagrado. Poderia Deus ser cultuado na Babilônia! (1.28; I 1.16, 19-20). Deus fará um novo pacto com o seu povo, superior ao pacto celebrado no tempo de Moisés (11.19-20; 34.25; 36.27). Veja que ao mesmo tempo de Ezequiel, Jeremias proclamava as mesmas verdades em Jerusalém. Deus queria invadir o coração de seu povo com uma nova esperança e uma nova visão de sua relação com ele.

Ezequiel, além das suas declarações sobre Deus, afirma que o povo é pecaminoso (16.1-63; 20.1-31; 23.1-49) e por isso está na situação de exílio. Ezequiel inova o conceito teológico da responsabilidade. Até o momento a responsabilidade era da comunidade como um todo; agora, porém, é individual (3.18; 18.1-29). Tanto a responsabilidade como a salvação será do indivíduo, mas o desfrutar da salvação sempre será em comunidade. Por isso é que há restauração para o povo e não apenas para o indivíduo. A salvação é um bem individual, mas só tem entendido quando partilhada. Vivida em comunidade. Quando se fala em salvação individual, não está sendo dito que há um individualismo irresponsável, que não se deve prestar contas a ninguém.

A MENSACEM CENTRAL

Setenta vezes aparece a expressão "eles saberão que Eu sou o Senhor" (6.7, 10. 13. 14; 7.4, 9, 27; I 1.10 etc.). Deus quer deixar bem claro por meio de seu profeta que ele é Soberano. Nada estava acontecendo por acaso. O povo tinha sua parcela de culpa, mas era Deus quem estava no controle. Se ele está no controle, ele tem a autoridade não só sobre Israel, mas também sobre as nações, principalmente aquelas que perturbam Israel.

CONTEÚDO DE EZEQUIEL

I) A chamada e mensagem de Ezequiel (1.1-3. 21). O profeta foi chamado para anunciar. Não iria anunciar a sua própria opinião sobre os acontecimentos políticos entre seu povo, mas "as minhas palavras" (3.4), ou seja, aquilo que Deus quer. O momento de Ezequiel exigia mais que simples percepção dos acontecimentos; requeria revelação de Deus. A mensagem de Ezequiel era: Deus destruirá, mas restaurará e reconstruirá a nação. Somente Deus poderia revelar tal mensagem, pois a visão do povo seria o desespero em estar numa nação estrangeira. longe de sua pátria.

2) A predição da queda de Jerusalém (4.1-5.17). Daqui até o final do capítulo 24. Ezequiel profere diversas profecias que se referem aos Julgamentos de Deus sobre Jerusalém e Judá. Em 4.1 a 5.17 a queda de Jerusalém é profetizada. O inimigo babilônico estava controlando a região com mãos de ferro. Qualquer tentativa de rebeldia era punida com severidade. As constantes tentativas de alianças com Egito atraíam a indignação porque este era o grande rival da Babilônia.

3) A idolatria e a ausência da glória de Deus (6.1-11.25). A causa da predição da destruição estava na idolatria que os líderes tinham incentivado havia muito tempo. Lembre-se que o Reino do Norte. em 722 a.c., teve um destino trágico por causa da idolatria. Ezequiel descreve que a consequência foi que a glória de Deus se foi de Judá. E a forma de dizer que Deus abandonou o seu povo? Será que foi isso que realmente aconteceu? O povo deveria-passar por um longo processo educativo e punitivo.

4) A futilidade dos lideres da nação (12. I -I 5.8). O capítulo 12 começa com um ato profético de Ezequiel mudando-se para fora dos muros da cidade. prefigurando, assim, o exílio. Os falsos profetas receberam severas advertências, porque estavam conduzindo o povo ao engano e ao erro, culminando na idolatria, que é a substituição de Deus por qualquer corsa.

5) A restauração virá, mas antes a destruição (16. 1-24.27). Há constantes promessas em Ezequiel acerca da restauração do povo, mas as promessas estão sempre associadas à destruição. E preciso entender a didática de Deus nessa revelação. A destruição não viria por um sentimento de vingança de Deus, mas de sua misericórdia e fidelidade. Ele sabia que precisaria destruir para que, junto com o remanescente, reconstruísse dos escombros uma nova relação. No caso específico de Judá, a destruição era necessária porque o nível de endurecimento de coração era muito grande. Quanto mais duro é o coração, maior é o impacto para quebrá-lo. Um crente com coração "derramado" diante de Deus, está sempre pronto a ouvir e a obedecer. Coração assim não precisa de um martelo para quebrá-lo, mas de um cajado para conduzi-lo mansamente.

Um aspecto que deve ser destacado no processo de restauração é a ênfase agora do profeta sobre a responsabilidade individual (capítulos 3 e 18). Ezequiel é o profeta da responsabilidade individual. Não que os outros profetas não tenham destacado o princípio da responsabilidade individual, mas foi Ezequiel quem anunciou com mais clareza o que Deus pensa a respeito disso. Na sociedade atual, o princípio da responsabilidade individual é levado o extremo por alguns a ponto de o transformarem numa espécie de isolamento. Outro extremo é esquecer da responsabilidade individual e colocar a culpa no grupo, no meio ou em outros. A expressão comumente usada que "o homem é produto do meio" conduz a um determinismo que não permite que o princípio de transformação do indivíduo, que tanto defendemos à luz do evangelho, funcione adequadamente. Temos outros ditados "populares" que têm essa ideologia por trás: "vara que nasce torta morre torta", "filho de peixe, peixinho é", "educação, já se nasce com ela" etc. Nenhum extremo nem outro. O princípio é a competência do indivíduo em responder diante de Deus pelos seus atos. "Cada um dará conta de si mesmo a Deus", disse Paulo.

6) Profecias sobre as nações (25.1-32.32). As nações que mais intervieram ou se aproveitaram da desgraça de Judá, recebem uma severa profecia. O princípio teológico que está por trás dessas profecias é a convicção de que Deus é o Rei de toda a terra. Ele controla a história, é o Senhor de tudo, inclusive das nações pagãs. Sobre elas ele tem autoridade. É o Deus pessoal de Judá, mas é também o dono de tudo.

7) Restauração por meio do "meu servo Davi" (33. 1 -34.31 ). Falamos atrás do martelo que deve quebrar o coração endurecido, mas esse não, o plano de Deus. O que mais identifica a ação de Deus é a figura do pastor que conduz "a águas tranquilas" e não do juiz implacável, que procura punir e castigar. Ele o faz porque é justo, mas o melhor símbolo é o cajado. Por isso a esperança messiânica fala do apascentar e conduzir pelo "meu servo Davi" (34.23), por meio de quem haverá um novo pacto de paz (34.25-31).

8) A restauração de toda a terra (35. I -36.38). Deus quer ser reconhecido como Senhor absoluto de toda a terra. Nesses capítulos há uma afirmação de que toda a terra será restaurada e não somente a terra de seu povo escolhido. As bênçãos são para "todas as famílias da terra".

9) Reavivamento do povo (37. 1-28). Na visão do vale dos ossos secos, há o ensino de que Deus pode ressuscitar uma nação dos escombros, desde que haja arrependimento e consequente volta para o Senhor.

10) A vitória sobre os deuses pagãos (38. 1-39.29). A restauração tem como consequência também a vitória sobre os inimigos. Deus nos conduz em triunfo sobre os inimigos porque somos um povo que voltamos para ele e tivemos nossas vidas renovadas.

11) O povo restaurado prestará o verdadeiro culto (40.1-48.35). E interessante observar que Ezequiel gasta nove capítulos para descrever a restauração do templo, porque ele era o símbolo da presença de Deus entre o seu povo. Porque a glória tinha ido de Jerusalém, agora precisava voltar. A glória de Deus precisava novamente voltar para Jerusalém porque ela é a cidade do Grande Rei. Não é à toa que o último versículo diz que Jerusalém será chamada "Jeová-Samá", ou "O senhor está ali". Este era o grande alvo de Deus: estar no meio do seu povo (Ap 21-22).A maior bênção é a presença de Deus, porque ela é decisiva para todos os outros tipos de realizações na vida. Sem Deus a vida é um tremendo vazio espiritual...

Bispo. Capelão/Juiz. Mestre e Doutor em Ciência da Religião Dr. Edson Cavalcante.

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