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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

ESTUDO SOBRE O LIVRO DE CANTARES DE SALOMÃO- PARTE 01

Cantares de Salomão analisado de forma direta e sem meias palavras.

Cantares de Salomão – parte 1
Introdução
Nessa primeira parte da nossa pequena análise dos maravilhosos e tão polêmicos capítulos deste livro; irei apenas abordar algumas questões no que tange a esfera de ação do livro. Depois dessa tarefa inicial e determinante feita, podemos transitar nas entrelinhas do livro com mais segurança e teremos uma compreensão satisfatória da mensagem dos capítulos e conseqüentemente do livro com um todo.
Eu particularmente tenho um fascínio por este livro. Ele me atrai devido sua singularidade e devido o seu poder ser tão forte, que simplesmente consegue inibir e constranger os mais experientes pregadores e professores.
Primeira característica marcante, o livro fala de sexo. Na cabeça de muitas pessoas é inconcebível a idéia de um livro sagrado falar de sexo abertamente. Muitos evangélicos mantém o hábito de pular as calorosas páginas de Cantares de Salomão. Já ouvi pastores aconselhando os jovens da sua igreja a não ler esse livro para não “estimular´´. Agora… eu fico me perguntando, não ler a Bíblia porque estimula o que? O que Salomão faz com a Sulamita em alguns capítulos? Interessante, esses pastores e falsos moralistas deveriam ensinar aos jovens que o que estimula a pecar não é leitura da Bíblia – ainda que ela tenha um livro que aborde o assunto de forma explícita e sem meias palavras.  Estes falsos moralistas deveriam ensinar aos jovens a ler a Bíblia mais e mais. Deveriam ensinar que MALHAÇÃO é uma porcaria e que ensina valores desvirtuados; que BIG BROTHER BRASIL é um lixo televisivo que não vai lhes dá nenhuma contribuição cultural e ética e também deveriam ensinar que o tempo gasto com NOVELAS poderia ser investido no Reino de Deus e resgate dos perdidos.
Devido o seu conteúdo, ele foi junto com o livro de Ester, um dos últimos livros a serem aceitos como sendo canônico – digno de ser aceito como Palavra de Deus. Acerca desse assunto, Soares (1995, p.182) diz: “Os rabinos duvidaram do seu valor espiritual. Foi o único livro da Bíblia Hebraica não citado por Filo´´.
Segunda característica marcante, a ausência do nome de Deus. Outro problema que o livro gera e que o deixa ainda mais polêmico e rejeitado, é que o nome de Deus não é citado pelo autor. Devemos lembrar que o livro de Ester também não faz menção do nome de Deus e não fala de sexo – pois alguns pensam que por Cantares falar de sexo o nome de Deus não é mencionado. Isso é uma crença simplesmente absurda e infantil.
Terceira característica marcante que envolve o livro, os debates entre as escolas de interpretação. Há uma briga diplomática entre os estudiosos devido as possibilidades interpretativas. Os pais da igreja e outros teólogos podem ser citados como exemplo disso. Podemos destacar alguns teólogos defensores da interpretação alegórica: Panteno, Justino Mártir, Clemente de Alexandria, Orígenes, Agostinho e outros. Na escalação do time da interpretação literal ou hitórico-gramatical temos: Doroteu, Lúcio, Teodoro de Mopsuéstia, João Crisóstomo, Jerônimo, Adriano de Antioquia, Junílio, João Calvino e outros.
Autoria
No que diz respeito acerca da autoria, pode-se afirmar que foi Salomão por alguns motivos plausíveis. Por exemplo, percebe-se que o autor tem uma vasto conhecimento da fauna e flora da  região. Pensando assim, Archer (2004, p. 350) afirma: “O autor demonstra um interesse marcante pela história natural, e isso corresponde aos relatórios acerca do conhecimento enciclopédico que Salomão tinha desse campo (I Reis 4:33)´´.
Interessante é que no livro, 21 espécies de plantas e  15 espécies de animais são citados. Também faz menção a cavalaria de Faraó, o que condiz com I Reis 10:28, onde a cavalaria de Faraó é um item importante no exército de Salomão. Poderia citar mais argumentos em favor da autoria de Salomão, mas fico por aqui, minha intenção não é uma análise exaustiva dos assuntos abordados nessa série de estudos. Com isso podemos nos dá por satisfeitos em relação a comprovação da autoria de Salomão.
Escolas de Interpretação
Uma questão que considero muito importante e determinante para chegar-se a interpretação correta e sadia do texto, é escolhermos o caminho interpretativo que nos conduzirá a tal interpretação. O caminho interpretativo escolhido vai nos levar a uma interpretação que ficará muito distante de outras rotas escolhidas por outras pessoas – vários caminhos, vários destinos. Aqui vou me deter apenas nas mais famosas e rivais escolas de interpretação que vai nos ajudar a um posicionamento seguro e mais calmo na abordagem do texto de Cantares. Me refiro a interpretação alegórica e a interpretação literal (hitórico-gramatical).
A escola alegórica dominou o cenário interpretativo do século III ao XVI. Segundo o dicionário de teologia Vida, “ Alegoria é uma história em que os pormenores correspondem a um significado “oculto´´, “mais elevado´´ ou “mais pronfundo´´, ou o revelam. O método alegórico de interpretação bíblica supõe que as histórias bíblicas devem ser interpretadas pela busca do significado “espiritual´´, para o qual o sentido espiritual remete´´. (GRENZ; GURETZKI; NORDLING, 2006, p. 6).
Uma grande autoridade no mundo da teologia do Antigo Testamento – que eu tenho profunda admiração e respeito, é o Doutor Walter Kaiser. No seu livro “documentos do Antigo Testamento´´ define interpretação alegórica dizendo: “assume que existe uma comparação não expressa no texto bíblico que permite ao intérprete fazer uma relação ao sentido terreno, literal e o sentido celestial, mais profundo, para aumentar o tom espiritual, impacto e significado do que de outra forma seria material terreno, apagado e datado´´. Kaiser (2007, p. 208).
A interpretação alegórica afirma que o livro de Cantares de Salomão retrata o amor de Cristo para com sua igreja. Ou seja, o amor de Salomão representa o amor de Cristo pela sua igreja – no caso, a Sulamita. Já no período do Antigo Testamento representava o amor de Deus por Israel. Tenho grandes problemas para aceitar esse método como o correto para se interpretar esse livro. Sei que vou colocar meu pescoço na guilhotina, pois a maioria dos evangélicos são alegóricos – mesmo que nem saibam o que é isso nem tenham estudado nada sobre o assunto. Infelizmente muitos crentes tem uma alma católica. Por tradição aceitam doutrinas sem nunca questionarem quão confiáveis elas são.
A interpretação correta pergunta: o que o autor quis dizer com esse texto? Qual era a sua intenção? O que ele queria que os seus leitores primários ou originais entendessem? Não podemos dizer o que o texto não diz, nem tão pouco amordaçá-lo e emudecê-lo. O pregador sério, o estudioso das Escrituras, o crente fiel e comprometido com a Palavra de Deus, vai procurar deixar o texto falar por si só. O autor ao escrever aquele material, tinha uma intenção, queria atingir um alvo, propagar uma mensagem específica aos seus leitores. A missão do intérprete e pregador é usar ferramentas que possibilite encontrar o verdadeiro sentido do texto analisado. A interpretação alegórica deixa muitos flancos em aberto. Por não se basear na intenção do autor inspirado, deixa o pregador “livre´´ para as mais diversas, absurdas e subjetivas  interpretações. Na tentativa de defender o caráter cristão do A.T. alguns alegorizam tudo. Por exemplo, quando um texto fala de árvore ou madeira, está falando da cruz de Cristo. Ou quando se fala em escarlate – vermelho, é o sangue de Jesus. A alegoria deve ser aplicada nos textos que a literatura oferece permissão, mas nunca em textos narrativos e onde o próprio contexto geral não permite. Mas você deve está se perguntando: mas Cantares não é um texto histórico, é poético? Vamos resolver esse problema. Apesar de ser um livro poético, tendo um estilo literário bem específico, não podemos fazer uma dicotomia, separação do seu valor histórico. É poesia mas não parábola, existem personagens históricos, não fictícios – como é característico do material parabólico.
Analisemos como exemplo a parábola do filho pródigo e a do publicano,  depois vamos comparar com o enredo de  Cantares.  No texto de Lucas, nem o nome do pai nem os dos filhos são mencionados. A terra que o pródigo vai não é especificada, apenas é dito que é uma terra distante. Não há nada específico, abrindo espaço para a interpretação alegórica; pois se trata de uma parábola. Na parábola do publicano, Jesus diz que 2 homens vão orar no templo, ninguém sabe o nome deles, apenas que um era publicano e o outro fariseu. Por que? Simplesmente porque eles não eram personagens históricos, de fato aquilo não aconteceu, mas mostrava uma lição por trás da estória. Uma regra simples na interpretação de parábolas é que não se dá nomes aos personagens em parábolas, porque não se trata de uma narrativa histórica, não aconteceu na história o que se está sendo contado; apenas ilustra uma verdade por trás e uma lição espiritual, ética e religiosa. Mas você pode me perguntar: Erick, e a parábola de Lázaro, que foi ao ceio de Abraão? Vamos resolver mais esse problema. Meu amado irmão, você precisa ficar ciente que os títulos em negrito que você encontra em cima das perícopes ou parágrafos da sua bíblia, não estão no texto original. Não foi escrito pelo punho do autor. Mas foram acrescentados para ajudar o leitor a entender o conteúdo de cada parágrafo. Eles nem sempre contêm todo o conteúdo do parágrafo. Os capítulos e versículos também foram acrescentados para nos ajudar. Mas lembre-se, eles não são inspirados, como o conteúdo do livro. Você mesmo pode criar seu próprio título, bastar analisar o capítulo e os parágrafos.
Agora, faço uma pergunta e um desafio a você caro leitor. Como você pode interpretar o livro de Cantares como sendo alegórico, diante de textos que falam de sexo abertamente? Certa vez estava na sala de aula no seminário, quando uma alguém ministrava Cantares de Salomão e disse que entendia o livro de forma alegórica. olhei para a turma e vi que ninguém se importou ou perguntou alguma coisa. Pensei comigo: “ou todo mundo aqui é alegórico ou ninguém sabe nem o que é isso e estão calados sem dá o mínimo crédito e devida importância a se escolher e questionar os métodos interpretativos´´. Depois de alguns minutos de exposição, levantei a mão e tive que perguntar algumas coisas. Perguntei como um alegórico vê os textos de Cantares que falam de sexo e como correlacionam como sendo algo referente a Cristo e a sua igreja. Visto que quando o texto fala: baija-me com os beijos da tua boca. Eu tenho que aplicar isso a Cristo e a sua igreja. Ou como o texto que Salomão diz que quer entrar no jardim fechado da Sulamita – ou seja, ele se refere a virgindade da Sulamita. Como aplicar um texto desse correlacionando com Cristo e sua igreja? Um silencio de filme de faroeste se fez na classe. Defendendo a inferioridade e o problema que é o método alegórico Ramm diz: “A maldição do método alegórico, escreve Bernard Ramm, é que ele obscurece o verdadeiro sentido da Palavra de Deus… A Bíblia tratada de forma alegórica torna-se massa de modelar na mão do exegeta´´. (1970, p. 30 apud GREIDANUS 2006, p. 109)
Por fim quero dizer que respeito as opiniões divergentes, como respeitei a posição que ouvi no seminário. O debate sadio que visa crescimento e amadurecimento de idéias é totalmente sadio e benéfico. O diálogo e a reflexão devem fazer parte do cardápio diário dos crentes em Jesus. Mas, podemos defender aquilo que entendemos como sendo mais coerente e que satisfaz as exigências da hermenêutica ortodoxa. Pelos motivos supracitados e outros que por motivos de espaço não irei me deter, sou adepto da linha literal (hitórico-gramatical) de interpretação. Rejeitando assim o modelo alegórico para se interpretar Cantares de Salomão. Esta interpretação poderia fazer com que o livro significasse qualquer coisa que a imaginação fértil do intérprete pudesse inventar, e, no final, as suas próprias extravagâncias seriam sua ruína, de forma que hoje esta escola de interpretação praticamente desapareceu das academias de teologia. Deve ser rejeitado por   ser um caminho inaceitável de interpretar a bíblia. Por essa razão só aceitamos os métodos que nos permitem extrair o significado das palavras com base no sentido claro delas, como foram escritas. Fundamentado nisso, o Cantares de Salomão está falando do amor humano entre um homem e uma mulher. Foi esse amor que estava faltando quando Deus disse: “Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea´´.
A escola literal afirma que Cantares deve ser interpretado com sendo um cântico que expressa o relacionamento verdadeiro entre os cônjuges. Defensores desta teoria, tais como E. J. Young e H. H. Rowley, defendem a canonicidade do livro, explicando que implica numa sanção divina do relacionamento do amor nupcial, em contraste com as perversões degeneradas ou polígamas do casamento que eram comum na época.
Segundo o dicionário de teologia Vida, a teoria literal  é definida como “Fidelidade rigorosa a determinada palavra significado, tanto na interpretação como na tradução de textos bíblicos. No que diz respeito à interpretação, o literalismo em geral tenta compreender a intenção do autor, buscando o significado mais claro e evidente do texto, segundo opinião do intérprete . na tradução, procura-se transmitir o verdadeiro significado do texto bíblico usando palavras de outra língua com o máximo de exatidão´´. (GRENZ; GURETZKI; NORDLING, 2006, p. 81).
Esta teoria literal assume várias formas especializadas, das quais as duas mais importantes são a hipótese do pastor e a hipótese erótica. A hipótese do pastor, introduz uma outra figura masculina, que não é a do rei Salomão, mas sim, o noivo da Sulamita na sua cidade natal de Sunem.  A hipótese erótica, defende Cantares como sendo uma coleções de canções nupciais do tipo wasf. As canções do tipo wasf eram cantadas por hóspedes numa festa de casamento Sírio, Na qual a beleza da noiva e as qualidades do casal seriam descritas de maneira calorosa. Aconselho ao leitor mais interessado no assunto, procurar mais detalhes e explicações, visto que não é minha intenção ventilar todas as linhas de interpretação de forma exaustiva.
discordando das hipóteses supracitadas, venho defender a que entendo  ser a mais coerente. Estou falando da interpretação literal típica. Assim como Ravem e Unger, eu entendo o poema foi baseado num incidente histórico na vida de Salomão. Em contraste com algumas esposas deslumbrantes de Salomão, tais como a filha de Faraó, a Sulamita era uma moça do campo, com uma alma bela além do corpo. Através de sua sinceridade e seus encantos pessoais,  ensinou  Salomão pelo menos por um breve tempo, o significado do verdadeiro amor monógamo – um amor pelo qual de boa mente ele trocaria o esplendor corrupto da sua corte. Este cântico transfigura o amor natural, elevando-o até um nível consagrado. O sexo no casamento é um ato de adoração. Por mais estranho que talvez pareça na sua mente, ou na mente de alguns pseudo-moralistas; se preservar, se guardar virgem, para se entregar a outra pessoa dentro da aliança do casamento, é um ato santo e de adoração a Deus. Afirmo isso sem medo de errar.
Conclusão
Essa foi a primeira parte do nosso estudo de Cantares de Salomão. Os próximos serão mais curtos e dentro da nossa proposta, que é interpretar Cantares de forma rasgada, direta e sem meias palavras. Foi necessário essa introdução mais longa e com um linguajar mais técnico; mas podem ficar tranqüilos que no próximo texto, quando começarmos o capítulo 1, a coisa vai esquentar. Já posso adiantar que não vou economizar meu vocabulário popular, só assim muitas pessoas irão perder a vergonha de falar e interpretar esse livro tão maravilhoso e rico. Até  a próxima pessoal...
BISPO/JUIZ.DR.EDSON CAVALCANTE

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