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sexta-feira, 27 de novembro de 2020

VIVER EM JUGO DESIGUAL

 


VIVER EM JUGO DESIGUAL


Embora o jugo seja termo utilizado para denominar a canga posta sobre animais de parelhas, o termo também foi utilizado para fazer alusão à condição de sujeição dos escravos aos seus senhores ( Jr 28:2 ) e, subsidiariamente, como figura, é utilizado para fazer referência à condição do homem sob a égide do pecado (Rm 7:14 ).

A servidão na antiguidade também era denominada de jugo. Vemos que Hesíodo, citado por Aristóteles, já dizia que uma família era formada de uma casa, uma mulher e um boi, visto que o boi (animal sobre o qual a canga é colocada) é o escravo do pobre (Aristóteles, A Política, Tradução Nestor Silveira Chaves, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011, pág. 20, § 6).

“Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis; porque, que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas? E que concórdia há entre Cristo e Belial? Ou que parte tem o fiel com o infiel? E que consenso tem o templo de Deus com os ídolos? Porque vós sois o templo do Deus vivente, como Deus disse: Neles habitarei, e entre eles andarei; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo. Por isso saí do meio deles, e apartai-vos, diz o Senhor; E não toqueis nada imundo, E eu vos receberei; E eu serei para vós Pai, E vós sereis para mim filhos e filhas, Diz o Senhor Todo-Poderoso” ( 2Co 6:14 -18)

Certo dia minha esposa fez a seguinte pergunta: o jugo desigual que o apóstolo Paulo vetou aos cristãos de Corintos refere-se a casamento? Após a pergunta não pude descansar enquanto não analisei a questão.

É consenso entre os evangélicos, protestantes e católicos que o jugo desigual do qual o apóstolo Paulo fez referência na sua carta aos cristãos de Corintos refere-se a casamento, ou seja, que o apóstolo estaria orientando aos cristãos a não se casarem com pessoas não cristãs. Em função da má leitura deste verso o casamento entre crente e não crente tornou-se amplamente divulgado como jugo desigual!

Ao ler a segunda carta do apóstolo Paulo aos Corintos foi surpreendente verificar que o apóstolo dos gentios não trata de questões relativas a casamento.

Na primeira carta aos Corintos o apóstolo aborda questões matrimoniais, porém, quando ele analisa o assunto e passa aos cristãos, o apóstolo Paulo tem o cuidado de informar que não estava impondo mandamento algum, antes como por permissão, estava dando o seu parecer sobre a questão em pauta ( 1Co 7:6 e 40).

No versículo 14 de 2Co 6, a questão é de outra ordem, pois temos um mandamento específico: “Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis”, que se aplicado a casamento, contrariaria completamente o posicionamento inicial do apóstolo de expor somente o seu parecer, ou seja, o de não impor aos cristãos mandamento algum.

Outro aspecto do verso é que a mensagem tem como público alvo a igreja como um todo, ou seja, não visa somente os solteiros, pois o alerta para os casados foi específica na primeira carta ( 1Co 7:12 ). Também chama a atenção o fato de que, se fosse uma questão de matrimônio, porque o apóstolo faz alusão ao suposto pretendente utilizando se do plural? – infiéis -, se a regra social é ter um só cônjuge o correto seria: ‘não vos prendais a um jugo desigual com um infiel’ ( 1Tm 3:2 ; 3:12 ; 5:9 e Tt 1:6 ).

Caso o apóstolo estivesse determinando aos solteiros que não se casassem com descrentes (a ordem não incluiria os casados), ao menos o suposto pretendente seria descrito como infiel, e não como se apresenta: com os infiéis.

Por outro lado, faz-se necessário considerar se o instituto do casamento é tido por jugo ou prisão, pois a ordem é clara: “Não vos prendais a um jugo desigual…”.

O jugo diz de uma espécie de canga que se coloca em uma junta de animais que passam a andar conjugado um ao outro. Ou seja, para labutar com apenas um animal não é necessário o jugo.

A servidão na antiguidade também era denominada de jugo. Vemos que Hesíodo, citado por Aristóteles, já dizia que uma família era formada de uma casa, uma mulher e um boi, visto que o boi (animal sobre o qual a canga é colocada) é o escravo do pobre (Aristóteles, A Política, Tradução Nestor Silveira Chaves, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011, pág. 20, § 6).

Seria o casamento uma espécie de jugo, de escravidão?

Analisando algumas passagens bíblicas do Antigo Testamento que abordam questões relativas a jugo (servidão), vê-se que em nenhuma delas o matrimônio é abordado.

Certa feita o apóstolo Paulo citou a lei ao defender o seu direito de apóstolo dizendo: “Porque na lei de Moisés está escrito: Não atarás a boca ao boi que trilha o grão. Porventura tem Deus cuidado dos bois?” ( 1Co 9:9 ; Dt 25:4 ). Ou seja, o adágio que consta na lei foi expresso de modo a indicar que Deus estava cuidando dos homens, mesmo dos transgressores, pois era vetado ao juiz lesar o culpado ( Dt 25:3 ), de modo que o provérbio que consta da lei visava proteger os homens, e não os animais (bois).

Tratando da honra devida aos presbíteros, o apóstolo escreve a Timóteo e, novamente cita a mesma passagem da lei que cita animais: “Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina; Porque diz a Escritura: Não ligarás a boca ao boi que debulha. E: Digno é o obreiro do seu salário” ( 1Tm 5:17 -18), de modo que as citações da Escritura aplicam-se estritamente às questões de honra e mérito, pois o apóstolo Paulo utiliza as passagem para defender o seu apostolado e a honra dos presbíteros “Ai daquele que edifica a sua casa com injustiça, e os seus aposentos sem direito, que se serve do serviço do seu próximo sem remunerá-lo, e não lhe dá o salário do seu trabalho” ( Jr 22:13 ).

Quando foi dito: “Com boi e com jumento não lavrarás juntamente” ( Dt 22:10), a lei expressa um cuidado para com quem havia de utilizar os animais para realizar um trabalho e, subsidiariamente, os animais também eram beneficiados, porém, o cuidado não era específico para com os ‘bois’.

Tais textos do Antigo Testamento aplicam-se ao casamento? Não! Porque o instituto, ou o contrato de casamento, segundo a visão do homem da antiguidade, não comportava dois iguais, antes por causa da autoridade que possuía sobre a mulher, o homem exercia o cuidado e a mulher, por sua vez, lhe devia obediência.

Esta era a visão das sociedades antigas acerca do matrimônio:

“Cada um, senhor absoluto de seus filhos e de suas mulheres, distribui leis a todos…” (Homero apud Aristóteles, A Política, 2011, pág. 21).

Na mesma obra, Aristóteles complementa:

“O pai de família governa sua mulher e seus filhos como a seres livres, mas cada um de um modo diferente: sua mulher como cidadã, seus filhos como súditos (…) Quanto ao sexo, a diferença é indelével: qualquer que seja a idade da mulher, o homem deve conservar sua superioridade” (Idem).

Ora, se o marido é a cabeça da mulher, não há como considerar o casamento como jugo, pois no matrimônio as funções são distintas, e a condição de ambos na relação também. Assim como Cristo em relação à igreja é a cabeça por exercer o cuidado, o marido em relação à mulher é a cabeça, pois tem a função de cuidado do corpo “Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo” ( Ef 5:23 ).

Dentro deste mesmo aspecto, caso a mulher compartilhasse com o marido de um jugo, ser-lhe-ia impossível submeter-se ao cuidado de seu marido “Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor” ( Ef 5:22 ).

Diante das objeções acima poderíamos continuar afirmando que a determinação do apóstolo em 2co 6.14 tem referência a casamento?

Se a determinação paulina da segunda carta aos Coríntios 6, verso 14 não possui relação com casamento, do que trata, então?

Embora o jugo seja termo utilizado para denominar a canga posta sobre animais de parelhas, o termo também foi utilizado para fazer alusão à condição de sujeição dos escravos aos seus senhores ( Jr 28:2 ) e, subsidiariamente, como figura, é utilizado para fazer referência à condição do homem sob a égide do pecado (Rm 7:14 ).

Todos os homens em função da transgressão e filiação de Adão tornaram-se pecadores, ou seja, passaram a ser servos, escravos do pecado ( Rm 3:23 ). Por descenderem de Adão, um escravo do pecado, todos os homens passaram a servir ao pecado de modo que estava posto sobre os ombros de todos os homens um jugo. O pecado exercia domínio sobre todos os homens, logo, ser pecador diz de uma condição semelhante à condição de escravo.

O domínio do pecado é um jugo de opressão e a humanidade sem Deus é descrita como oprimida, cansada, sobrecarregada, etc. Entretanto, os profetas anunciaram que haveria um tempo de refrigério. O profeta Isaías anunciou que: “O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz (…) Porque tu quebraste o jugo da sua carga, e o bordão do seu ombro, e a vara do seu opressor, como no dia dos midianitas” ( Is 9:2 -4).

Isaías profetizou acerca dos gentios que, apesar de andarem em trevas e habitarem nas regiões da morte, resplandeceu-lhes a luz, de modo que o jugo da carga, o bordão que estava sobre o ombro e a vara do opressor foi quebrado. Para quem vivia sem Deus e sem esperança no mundo ( Ef 2:12 ), raiou a luz da vida, de modo que, os que creem em Cristo, são transportados do domínio das trevas para o domínio da luz “O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” ( Cl 1:12 ).

Quando Jesus oferece aos seus ouvintes o seu jugo e o seu fardo, ele se identificou como Senhor, e qualquer que O obedece se sujeita a um jugo suave e toma sobre si um fardo leve. Basta aos ouvintes de Jesus reconhecer que está cansado e oprimido em decorrência do jugo do pecado, que há de ser aliviado do cansaço e da opressão: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” ( Mt 11:28 -30).

A proposta de Cristo é conforme as promessas preditas pelos profetas: “Julgará os aflitos do povo, salvará os filhos do necessitado, e quebrantará o opressor” ( Sl 72:4 ), portanto, para ser alcançado pela promessa, os ouvintes de Cristo devem reconhecer a sua condição e confiar em Cristo como o Senhor que resgata o homem do pecado “Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus” ( Sl 51:17 ).

Ao crer em Cristo, dá-se o explicado pelo apóstolo Paulo: “Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça? Mas graças a Deus que, tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues. E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça” ( Rm 6:16 -18).

Ora, através da leitura, fica patente que há somente dois senhores, dois jugos. Há os servos da obediência e os servos do pecado. Os servos da obediência são aqueles que foram gerados de novo segundo a vontade de Deus segundo o último Adão, que é Cristo, e os servos do pecado, que vem ao mundo sob o jugo decorrente da desobediência de Adão ( 1Co 15:22 -23 e 1Co 15:45 ).

Aos homens só é possível estar em uma destas condições: ou se é servo da justiça ou se é servo do pecado, ou se está sob o jugo da justiça ou sob o jugo do pecado, conforme declarou Jesus: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” ( Mt 6:24 ).

Há apenas dois senhores e o nascimento determina a quem o homem servirá. Se nascidos da carne de Adão são servos do pecado, se nascidos de novo, servem a justiça ( Sl 58:3 ; Sl 51:5 ).

Todos os homens estavam em igual condição diante de Deus por serem descendentes de Adão, mas os judeus consideravam que haviam deixado tal condição por serem descendentes da carne de Abraão. Não consideraram que para serem filhos de Abraão era essencial que tivessem a mesma fé que Abraão, pois ser gerado da carne de Abraão, em última instância era o mesmo que ser descendente de Adão “Teu primeiro pai pecou, e os teus intérpretes prevaricaram contra mim” ( Is 43:27 ); “Mas eles transgrediram a aliança, como Adão; eles se portaram aleivosamente contra mim” ( Os 6:7 ).

O maior problema de Israel estava em não reconhecer que estavam sob a mesma maldição que todos os homens “Deus olhou desde os céus para os filhos dos homens, para ver se havia algum que tivesse entendimento e buscasse a Deus. Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um. Acaso não têm conhecimento os que praticam a iniquidade, os quais comem o meu povo como se comessem pão? Eles não invocaram a Deus” ( Sl 53:2 -4).

Por ser descendente da carne de Abraão, Deus deu ao povo de Israel a lei como aio para conduzi-los a Cristo, porém, quando Cristo veio, os judeus se apegaram a letra da lei e rejeitaram a mensagem de Cristo. Era necessário que mudassem de concepção (metanóia=arrependimento), pois Cristo era o descendente prometido a Abraão em quem todas as famílias da terra seriam benditas.

Por causa desta condição de Israel foi que o apóstolo Paulo escreveu: “Nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência. Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência” ( Rm 9:7 -8).

Tanto judeus quanto gentios estavam alienados de Deus em virtude de serem descendentes de Adão, portanto, filhos da ira e da desobediência. Ao desobedecer, Adão tornou-se escravo do pecado e todos os seus descendentes passaram a compartilhar de igual condição.

Com a vinda de Cristo, Ele obedeceu ao Pai em tudo, de modo que ao ser crucificado, morto e sepultado, ressurgiu dentre os mortos pelo poder de Deus. Ora, todos que creem em Cristo, tornam-se participantes da sua carne e sangue, ou seja, são crucificados, mortos, sepultados e, pelo poder de Deus ressurgem uma nova criatura.

Em virtude de estarem em uma nova condição diante de Deus: servos da justiça, é que o apóstolo Paulo ordena: “Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis; porque, que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas? E que concórdia há entre Cristo e Belial? Ou que parte tem o fiel com o infiel? E que consenso tem o templo de Deus com os ídolos?” ( 2Co 6:14 -).

A mensagem à igreja em Corintos é a mesma anunciada aos Gálatas: “Cristo nos libertou para que sejamos de fato livres. Estai, pois, firmes e não torneis a colocar-vos debaixo do jugo da escravidão” ( Gl 5:1 ).

O jugo dos infiéis é o jugo do pecado, e o jugo dos fiéis é o jugo da justiça. Se o cristão é liberto do Senhor, deve permanecer livre, firme, e não mais retornar a submeter-se ao jugo da escravidão. Como é possível a um homem liberto do Senhor, conforme na carta aos gálatas, voltar a se sujeitar ao jugo da servidão? Buscar ser justificado pelas obras da lei, como o submeter-se à circuncisão do prepúcio da carne.

Antes de dar a determinação aos cristãos de Corintos, o apóstolo Paulo relembra que o ministério de Cristo é segundo a misericórdia ( 2Co 4:1 ) e que ele, o apóstolo, não era falsificador da palavra de Deus como alguns faziam ( 2Co 4:2; 2Co 2:12 ), para tanto, o apóstolo Paulo contrasta a lei com o evangelho ( 2Co 3:6 ), de modo similar ao que foi feito com os cristãos da Galácia.

Em razão de haver obreiros fraudulentos entre os Corintos e, que se impunham sobre os cristãos apresentando como base da autoridade deles o serem descendentes da carne de Abraão, o apóstolo Paulo replica demonstrando a inutilidade da base da autoridade que eles invocavam, porque em Cristo todos morreram ( 2Co 5:14 ). Como Cristo morreu, segue-se que todos morreram e, se todos morreram e ressurgiram com Ele, certo é que ninguém mais deve ser conhecido ou honrado segundo a carne (descendência, nação, povo, sangue, etc), pois todos em Cristo são novas criaturas.

De modo que o alerta imperativo do verso 14 do capítulo 6 tem por foco alertá-los de jamais se submeterem as prescrições daqueles que se apresentavam como apóstolos de Cristo, porém, eram falsificadores da palavra ( 2Co 2:17 ). Compartilhar da doutrina e das práticas dos obreiros fraudulentos, que se louvavam a si mesmos, eram astuciosos e gloriavam-se da aparência, da carne 2Co 4:2 e 5; 2Co 5:12 e, 2Co 10:2 à 12 ).

Qualquer que aderisse à doutrina dos falsos apóstolos ( 2Co 11:11 -15), estava se prendendo a um ‘jugo desigual’, o jugo que é pertinente aos infiéis. Do mesmo modo que o apóstolo Paulo questiona aos Gálatas se eles não caíram da fé por se deixarem circuncidar, o apóstolo questiona aos Corintos se não havia caído da fé ( 2Co 13:5 ), em função de terem aderido ao ensinamento dos aproveitadores do evangelho, homens que não cuidava do rebanho, antes cuidava de arrematar os bens do rebanho para si ( 2Co 12:13 -15).

Da mesma forma que é descabido a um liberto do Senhor voltar às práticas da lei apregoadas pelos judaizantes, é descabido aos cristãos tolerarem os insensatos que os induzia a submeterem-se a um jugo para devorá-los “Porque, sendo vós sensatos, de boa mente tolerais os insensatos. Pois sois sofredores, se alguém vos põe em servidão, se alguém vos devora, se alguém vos apanha, se alguém se exalta, se alguém vos fere no rosto” ( 2Co 11:19 -20).

Se não há sociedade entre a justiça e a injustiça; Se não há sociedade entre a luz e as trevas; Se não há acordo entre Cristo e o inimigo; Se os fiéis não hão de herdar juntamente com os infiéis; Se o templo de Deus, que eram os cristãos, não possuía consenso com a rebelião ( 2Co 6:14 -), porque deveriam se prender ao jugo de apóstolos infiéis? Tal comunhão é proibida, vetado, ou seja, um jugo desigual.

O apóstolo não estava vetando os cristãos de negociarem, conviverem ou relacionarem com os infiéis, antes vetou que comungassem das mesmas práticas em virtude da divergência que há entre a doutrina e vaidade dos falsos apóstolos e o zelo do que é honesto e da doutrina do evangelho de Cristo ( 2Co 8:21 ).

O ensino do apóstolo Paulo visava o estipulado na primeira epístola: “Alimpai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa, assim como estais sem fermento. Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós. Por isso façamos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da malícia, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade” ( 1Co 5:7 -8).

De modo que, quando ele aponta que é jugo desigual (proibido) os fiéis prenderem-se aos infiéis, não tinha em vista os devassos do mundo, antes aos que se diziam irmãos, porém, eram falsificadores da palavra de Deus “Isto não quer dizer absolutamente com os devassos deste mundo, ou com os avarentos, ou com os roubadores, ou com os idólatras; porque então vos seria necessário sair do mundo. Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais” ( 1Co 5:10 -11).

Observe que o foco principal do alerta do apóstolo Paulo na primeira carta não é o comportamento moral desregrado (embora seja salutar um bom proceder social), antes a doutrina daquelas pessoas que estavam levedadas pelo fermento da maldade e da malícia, que contrasta com os asmos da sinceridade e da verdade ( 1Co 5:8 ).

Quando o apóstolo veta: não vos associeis com os que se prostituem, ele se refere às pessoas como aquelas que Tiago tratou: Adúlteros e adúlteras, não sabeis que a amizade do mundo é inimizade com Deus ( Tg 4:4 ; 1Co 5:9 ). Enquanto o público de Tiago diz daqueles que faziam festas com o fermento velho (lei), o apóstolo trata de alguns que faziam festa com o fermento da maldade e da malícia, pois eram astuciosamente falsificadores da palavra de Deus.

Portanto, a determinação paulina não tem relação com casamento, união conjugal entre crentes e descrentes, pois ao tratar de casamento, o apostolo falou por permissão, não impondo mandamento.

Há equívocos nos seguintes pensamentos que têm por base 2Co 6:14:

“É impossível que a pureza do cristão e a contaminação do pagão sejam postas num mesmo jugo”, e ainda: “A passagem em sua totalidade é uma intimação para que não exista nenhum tipo de comunhão com os não crentes” , 2 Coríntios 6:14-18—7:1), ou:

“A ordem pode ser traduzida assim; “parem de se ligar heterogeneamente com os incrédulos“. O princípio reverte à legislação mosaica (cons. Lv. 19:19; Dt. 22:10). Os cristãos são “novas criaturas” (II Co. 5:17); não devem se ligar espiritualmente com os incrédulos mortos (cons. Ef. 2:1)” 2Co 6:14-16).

O que o apóstolo Paulo trata no verso em comento não impôs aos cristãos abandonarem os seus empregos, sociedades, vida social, laços de família ou casamentos que tinham com descrentes, antes tratou de alertá-los dos falsos obreiros que queriam prende-los a um jugo que lhes desse ocasião para devorá-los ( 2Co 11:12 compare com 2Co 11:21).
Apóstolo. Capelão/Juiz. Mestre e Doutor em Ciências da Religião Dr. Edson Cavalcante.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

O CRISTÃO E O DIVÓRCIO

 



                                                                O CRISTÃO E O DIVÓRCIO

As estatísticas de divórcio são assustadoras. Elas refletem falta de respeito, na sociedade moderna, pela vontade de Deus. A prevalência do divórcio entre as pessoas chamadas por Deus é ainda mais alarmante. Lembramo-nos tristemente que muitos que dizem servir a Deus não odeiam o que ele ardentemente detesta (Malaquias 2:16; Apocalipse 2:6).

Apesar dos esforços humanos para esquivar da vontade de Deus, podemos entender e seguir seu ensinamento sobre casamento, divórcio e novo casamento. Considere estes fatos fundamentais:

1. Deus fez o casamento para durar uma vida inteira. A vontade básica de Deus a respeito do casamento permanece inalterada desde o Éden. Jesus baseou seu ensinamento no princípio revelado em Gênesis 2:24 (Marcos 10:6-9). Paulo usou o mesmo princípio, claramente entendido em Romanos 7:2-3. Uma vez que o casamento dura somente até a morte (Mateus 22:30), as pessoas que enviúvam ficam livres para se casarem novamente (veja 1 Coríntios 7:39; 1 Timóteo 5:14).

2. O divórcio sempre envolve pecado. Em termos gerais, Deus proíbe o divórcio (1 Coríntios 7:10-11). Mesmo nos casos em que ele permite o divórcio e novo casamento (a ser examinado em breve), uma das pessoas pecou contra Deus e o companheiro. Onde o adultério não está envolvido, a decisão de divorciar é um ato de rebelião contra o Senhor. Aos olhos de Deus, não há tal coisa como divórcio "sem culpa."

Alguns torcem o comentário de Paulo em 1 Coríntios 7:11: (" Se, porém, ela vier a separar-se, que não se case, ou que se reconcilie com seu marido") para dizer que ele está sancionando o divórcio. Eles sugerem que, se o divorciado não se casar, a separação é permitida. Podemos ver claramente a falácia de tal argumento comparando a estrutura desta passagem com 1 João 2:1-2. Considere o paralelo óbvio:

1 Coríntios 7:10-11: "...não se separe...se, porém, ela vier a separar-se, que não se case... ou que se reconcilie com seu marido".

1 João 2:1-2: ".. não pequeis. Se ... alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai".

Pecado é errado em 1 João 2:1-2 e a separação é errada em 1 Coríntios 7:10-11.

Entendemos claramante que Paulo não autoriza o divórcio, considerando seu ensinamento uns poucos versículos antes. Ele disse que separações curtas por consentimento mútuo para o propósito de oração podem ser permitidas (1 Coríntios 7:5-6). Ele não aprovou decisões unilaterais de separar e não autorizou separações permanentes.

3. Jesus condena divórcio e novo casamento. Lucas 16:18 apresenta a regra geral: "Quem repudiar sua mulher e casar com outra comete adultério; e aquele que casa com a mulher repudiada pelo marido também comete adultério." Jesus condenou o que tem se tornado comum em nossa sociedade: a prática de deixar um cônjuge para se unir a outro.

O adultério mencionado aqui é um pecado contínuo que envolve relações sexuais entre pessoas que não têm permissão dada por Deus para coabitar. O pecado não está meramente no ato de fazer um voto de casamento, mas na conseqüente posse de um cônjuge ilícito. Não era errado somente para Herodes tomar Herodias como sua esposa; era ilícito para ele tê-la (Marcos 6:18). Para retificar esta situação perante Deus, a separação teria sido necessária. Quando o pecado é adultério, os frutos do arrependimento requerem o fim da prática (Mateus 3:8; 1 Coríntios 6:9-11). Tão certamente como ladrões, bêbedos e homossexuais têm que cessar suas práticas ímpias, os adúlteros têm que deixar suas relações ilícitas.

4. As mesmas regras se aplicam geralmente. Muitas pessoas tentam alterar o significado do ensinamento bíblico limitando sua aplicação em modos em que Deus não o restringiu. Consideremos dois exemplos de tais restrições artificiais:

Excluindo mulheres. Ocasionalmente, alguém tentará excluir mulheres do ensinamento de Cristo, devido ao uso de pronomes masculinos (Lucas 16:18; Mateus 5:32; 19:9). Além do fato que expressões masculinas freqüentemente incluem mulheres, Jesus esclareceu especificamente este ponto em Marcos 10:11-12, onde ele afirma o mesmo princípio visto das perspectivas masculinas e femininas.
Excluindo não cristãos. Outros excluem não cristãos do ensinamento de Cristo, sugerindo freqüentemente que 1 Coríntos 7:10-16 significa que Jesus não se dirigiu aos não cristãos. Além de ser uma interpretação insustentável, esta posição coloca os não cristãos numa situação difícil. Se Jesus não lhes falou, eles continuam sob a mesma lei básica dada a todos os homens em Gênesis 2, onde não há menção a qualquer motivo para divórcio e novo casamento. É claro que 1 Coríntios 7:12-16 aborda um assunto não especificamente mencionado no ensino pessoal de Jesus (como um cristão abandonado por um cônjuge não cristão deverá agir). A passagem não diz que os não cristãos não estão cobertos pela vontade de Deus, nem oferece qualquer permissão para novo casamento depois de uma separação.

Outros argumentam que a aliança de Cristo não abrange os descrentes. Diversos fatos bíblicos mostram as falhas deste tipo de argumento. Primeiro, há numerosas passagens que mostram que Deus tem sempre responsabilizado todos os homens por seus princípios básicos de moralidade, incluindo a conduta sexual. No Velho Testamento, Deus freqüentemente julgou os gentios por sua conduta ímpia, incluindo seus pecados sexuais (considere Levítico 18:24-30 em seu contexto, e compare com Romanos 1:18-32). Segundo, o ensinamento de Jesus foi dirigido aos pecadores, e não somente àqueles em comunhão com ele (Marcos 2:17). Pedro e Paulo entenderam que a mensagem do evangelho se aplica universalmente (Atos 10:34-35; 17:30). Terceiro, a afirmação de Paulo que alguns dos coríntios eram adúlteros antes de se converterem (1 Coríntios 6:9-11) mostra que eles eram sujeitos às leis de casamento de Deus mesmo quando ainda não estavam em comunhão com ele. Quarto, Paulo argumenta que o pecado e a morte vêem com a lei (Romanos 7:7-11) e diz mais que os gentios estavam mortos em transgressões e pecados (Efésios 2:1). Eles não estavam sujeitos à lei dada no Sinai, mas eram governados pela lei divina que incluía proibições de adultério. Hoje, todos os homens estão sujeitos ao domínio de Cristo, quer reconheçam este fato ou não (Efésios 1:20-21).
5. Jesus oferece uma exceção. Dois textos em Mateus complementam as afirmações registradas em outros lugares. Mateus 5:32 diz: "Eu, porém, vos digo: qualquer que repudiar sua mulher, exceto em caso de relações sexuais ilícitas, a expõe a tornar-se adúltera; e aquele que casar com a repudiada comete adultério." A regra básica é a mesma encontrada em Lucas 16:18 e Marcos 10:11-12. O divórcio geralmente resulta em outros pecados. Novo casamento é condenado. Se, contudo, o divórcio for por causa de imoralidade sexual, aquele que repudia a ofensora não faz com que ela se torne adúltera. Mateus 19:9 inclui um elemento adicional: "Eu, porém, vos digo: Quem repudiar sua mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas, e casar com outra, comete adultério [e o que casar com a repudiada comete adultério]." Novamente, divórcio leva a pecado adicional e o novo casamento é condenado. Como em todos os outros textos relevantes, à pessoa que é repudiada (independente do motivo) não é dada permissão para casar novamente. Mas se um homem se divorcia de sua esposa por causa de infidelidade sexual dela, ele não comete adultério se tornar a casar-se. Gramaticalmente, a exceção nega a conseqüência normal. A mesma palavra grega é usada em João 19:11, onde Jesus disse a Pilatos: "Nenhuma autoridade terias sobre mim, se de cima não te fosse dada". Uma vez que lhe tinha sido dada de cima, Pilatos teve autoridade para sentenciar Jesus à morte. Semelhantemente, a conseqüência em Mateus 19:9 é alterada em casos de traição: quem quer que se divorcie de sua esposa por causa da imoralidade sexual dela e se casa com outra não comete adultério.

Uma palavra de precaução: em nossas discussões de direito a divórcio e novo casamento, precisamos ser cuidadosos para não esquecermos o ensinamento do mesmo Senhor sobre os assuntos do amor e do perdão. Mesmo quando ele permite o divórcio, essa nem sempre é a melhor opção.

6. Jesus definiu a ordem dos eventos. Quando ensinamos sobre salvação, ressaltamos corretamente a seqüência dos eventos e os motivos de certos atos. Por exemplo, entendemos que a crença e o arrependimento precedem o batismo, e que o batismo é para o propósito de receber a remissão dos pecados (Marcos 16:16; Atos 2:38). Uma pessoa que não segue esta seqüência, ou que é batizada por algum outro propósito, não faz o que Deus exige. Semelhantemente, Jesus falou da imoralidade sexual como razão para divórcio. Um homem que abandona sua esposa por outros motivos, e espera até que ela subseqüentemente tenha relações com outro homem para justificar sua ação, não está respeitando a seqüência e a razão definidas pelo Senhor. Se não podemos aceitar que o arrependimento e o batismo venham depois da salvação, não podemos aceitar adultério depois do divórcio para justificar novo casamento.

7. A justiça humana não é o padrão. O casamento foi destinado por Deus e tem sido sempre governado por ele. Nossas opiniões pessoais são irrelevantes para discussões sobre o que é certo e o que é errado. Eu posso não gostar do fato que uma pessoa inocente possa ser repudiada sem nenhuma razão e não possa casar novamente, mas isso somente sugere meu entendimento inadequado da vontade de Deus (Isaías 55:8-9). Ele sempre tem razão e sempre busca nossos melhores interesses. Governos podem fazer leis justificando divórcios pecaminosos e permitindo casamentos pecaminosos, mas isso só prova que os governos humanos são capazes de desrespeitar a vontade de Deus. Aqueles que se defendem na base de lei humana precisam inevitavelmente aceitar uniões homossexuais e outras abominações, porque legisladores de "mente aberta" chamam o mal de bem, e o bem de mal (Isaías 5:20). Não esqueçamos que nós que somos santificados pela verdade estaremos sempre em descompasso com os padrões da sociedade descrente que nos rodeia (João 17:14-19; Romanos 12:1-2).

Conclusão

Podemos considerar as leis de Deus sobre o casamento rígidas e inflexíveis. Para muitas pessoas, elas apresentam um teste de submissão mais difícil do que a ordem de Jesus a um jovem rico para vender tudo o que ele tinha e dar aos pobres. Seja qual for o sofrimento que sua vontade possa exigir, podemos suportá-lo por nossa confiança na eterna bem-aventurança. (Hebreus 12:1-2). Jamais tiremos nossos olhos da meta.
Apóstolo. Capelão/Juiz. Mestre e Doutor em Ciências da Religião Dr. Edson Cavalcante.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

O ÚNICO REI BOM DO COMEÇO AO FIM DE SUA VIDA.

O ÚNICO REI BOM DO COMEÇO AO FIM DE SUA VIDA.

Josias foi um rei de Judá que reinou aproximadamente por 31 anos, entre 640 a.C. e 609 a.C. A história do rei Josias na Bíblia está registrada nos livros de 2 Reis, capítulos 22 e 23, e 2 Crônicas, capítulos 34 e 35, além de outras referências nos livros dos profetas Jeremias e Sofonias.

Quando se fala em quem foi Josias, logo se faz referência as reformas promovidas por ele, que foram, sem dúvida, a marca de seu reinado. O nome Josias significa “Javé sustenta”, do original Yo’shiyahu, ou Yo’shiyah.

O rei Josias
Josias era filho de Amom e neto de Manassés. Ambos foram reis de Judá, mas seus reinados foram caracterizados por grande apostasia. Embora tenha mostrado arrependimento no final de sua vida, Manassés foi um dos piores reis da história do Reino de Sul, e seu filho, Amom, seguiu pelo mesmo caminho.

Josias se tonou rei quando tinha 8 anos de idade em aproximadamente 640 ou 639 a.C., com a interferência do “povo da terra”, um movimento popular que também foi o responsável por eliminar os assassinos de seu pai (2Rs 21:24; 2Cr 33:25).

O nascimento do rei Josias, bem como a escolha de seu nome, foram previstos na época de Jeroboão I (1Rs 13:2).

O reinado do rei Josias
O rei Josias foi um dos bons reis de Judá. Diferente de seu pai e avô, Josias prezou pelo culto ao verdadeiro Deus. O cronista escreveu dizendo que no oitavo ano de seu reinado, ou seja, quando tinha 16 anos de idade, o rei “começou a buscar o Deus de Davi, seu pai” (2Cr 34:3). Josias era descendente do rei Davi.

No décimo segundo ano de seu reinado, portanto com aproximadamente 20 anos de idade, o rei Josias deu início efetivamente às reformas em Jerusalém e Judá, alcançando, inclusive, o norte de Israel. É interessante saber que o profeta Jeremias começou seu ministério como profeta durante o reinado de Josias, no décimo terceiro ano, em aproximadamente 626 a.C. (Jr 1:2).

As reformas do rei Josias
Embora pode-se dizer que as reformas promovidas pelo rei Josias tiveram suas raízes fixadas quando ele pessoalmente abandonou a idolatria e o politeísmo que dominavam a religião corrupta de Judá naquela época (2Cr 34:3), tais reformas começaram a impactar a nação quatro anos depois, e alcançou seu clímax no décimo oitavo ano de seu reinado, quando o livro da Lei foi encontrado (2Rs 22:8; 2Cr 34:14,15).

O rei havia interrompido a adoração aos falsos deuses em Judá, destruindo altares que serviam ao paganismo. Ele também providenciou que o Templo recebesse os reparos necessários, e foi durante essa época que o sumo sacerdote Hilquias encontrou o livro da Lei no Templo.

Os estudiosos debatem sobre o que teria sido exatamente o “livro da Lei”. A melhor hipótese é que ele tenha sido o livro de Deuteronômio, ou pelo menos uma obra que continha esse livro como parte fundamental.

Seja como for, o que se sabe é que esse livro foi muito importante na sequência das reformas de Josias. Quando o livro foi encontrado e Josias teve ciência de seu conteúdo, ele entendeu que o povo havia estado em terrível rebeldia contra Deus, e por isso seria alvo do juízo divino. Então rapidamente ele pediu que o Senhor fosse consultado, ou seja, ele queria ouvir um parecer profético, e na ocasião a profetisa Hulda foi procurada.

A mensagem de Deus através de Hulda esclarecia que o povo realmente seria castigado devido ao pecado, porém tal castigo seria adiado para após os dias de Josias, visto seu arrependimento sincero e zelo para com o culto a Deus.

Assim, houve em Judá a renovação da aliança, a centralização da adoração em Jerusalém, e a purificação da nação com a eliminação de toda forma de adoração pagã (2Rs 23:19,20; 2Cr 34:67). O rei Josias também organizou a maior celebração da Páscoa desde o tempo dos juízes (2Cr 35:18). Antes dele, o rei Ezequias também promoveu uma reforma e a celebração da Páscoa, porém a reforma liderada por Josias foi mais completa e extensa (cf. 2Rs 23:13).

Apesar de tudo isso, o profeta Jeremias deixou claro que tais reformas foram apenas superficiais e temporárias (Jr 2-6; 11), ou seja, não houve no povo um arrependimento genuíno e duradouro, inclusive, com o povo voltando rapidamente à idolatria após a sua morte. O profeta Jeremias também demonstrou apreço quando escreveu sobre a justiça durante o reinado de Josias (Jr 22).

A morte do rei Josias
A morte de Josias ocorreu de forma trágica e precoce na batalha de Megido em 609 a.C. Naquela época os assírios estavam em conflito contra os babilônios, e o Faraó Neco II, do Egito, estava liderando uma empreitada para tentar ajudar os assírios em Harã.

De forma imprudente e insensata, o rei Josias considerou as manobras do rei do Egito como representando ameaças ao seu reino, e inconsequentemente lhe fez oposição e acabou sendo morto (2Rs 23:25-30-; 2Cr 35:20-24).

O rei Josias foi sucedido por Joacaz, seu filho, porém este reinou durante apenas 3 meses e foi exilado por Neco II, que colocou em seu lugar como rei de Judá Jeoaquim, seu irmão. Nesse momento a independência política de Judá foi completamente comprometida, ficando sob o domínio do Egito.

Os eventos seguintes da história daquele povo acabaram culminando no exílio na Babilônia, onde o juízo de Deus foi derramado, e pelas mãos do rei Nabucodonosor Jerusalém foi destruída. Com base nisso, pode-se dizer que o rei Josias foi o último monarca bom e comprometido com a adoração a Deus antes do cativeiro.

O escritor do livro de 2 Reis, falando sobre ele, escreveu que no Reino do Sul “antes dele não houve rei semelhante, que se convertesse ao Senhor com todo o seu coração, e com toda a sua alma, e com todas as suas forças, conforme toda a Lei de Moisés; e, depois dele, nunca se levantou outro tal” (2 Rs 23:25). Além de Jeremias e Hulda, o rei Josias também foi contemporâneo do profeta Sofonias.

Mais tarde, no Novo Testamento, o rei Josias aparece como um dos nomes citados na genealogia de Jesus registrada pelo apóstolo Mateus (Mt 1). Além dele, a Bíblia também menciona outro Josias que foi um judeu contemporâneo do profeta Zacarias (Zc 6:10).
Apóstolo. Capelão/Juiz. Mestre e Doutor em Ciências da Religião Dr. Edson Cavalcante.