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segunda-feira, 25 de abril de 2016

O PROFETA DO RIO QUEBAR...


                                              O PROFETA DO RIO QUEBAR...
Depois disto, o homem me fez voltar à entrada do templo, e eis que saíam águas de debaixo do limiar do templo, para o oriente; porque a face da casa dava para o oriente, e as águas vinham de baixo, do lado direito da casa, do lado sul do altar. Ele me levou pela porta do norte e me fez dar uma volta por fora, até a porta exterior, que olha para o oriente; e eis que corriam as águas ao lado direito. Saiu aquele homem para o oriente, tendo na mão um cordel de medir; mediu mil côvados e me fez passar pelas águas, águas que me davam pelos tornozelos. Mediu mais mil e me fez passar pelas águas, águas que me davam pelos joelhos; mediu mais mil e me fez passar pelas águas, águas que me davam pelos lombos. Mediu ainda outros mil, e era já um rio que eu não podia atravessar, porque as águas tinham crescido, águas que se deviam passar a nado, rio pelo qual não se podia passar. E me disse: Viste isto, filho do homem? Então, me levou e me tornou a trazer à margem do rio. Tendo eu voltado, eis que à margem do rio havia grande abundância de árvores, de um e de outro lado. Então, me disse: Estas águas saem para a região oriental, e descem à campina, e entram no mar Morto, cujas águas ficarão saudáveis. Toda criatura vivente que vive em enxames viverá por onde quer que passe este rio, e haverá muitíssimo peixe, e, aonde chegarem estas águas, tornarão saudáveis as do mar, e tudo viverá por onde quer que passe este rio. Junto a ele se acharão pescadores; desde En-Gedi até En-Eglaim haverá lugar para se estenderem redes; o seu peixe, segundo as suas espécies, será como o peixe do mar Grande, em multidão excessiva. Mas os seus charcos e os seus pântanos não serão feitos saudáveis; serão deixados para o sal. Junto ao rio, às ribanceiras, de um e de outro lado, nascerá toda sorte de árvore que dá fruto para se comer; não fenecerá a sua folha, nem faltará o seu fruto; nos seus meses, produzirá novos frutos, porque as suas águas saem do santuário; o seu fruto servirá de alimento, e a sua folha, de remédio.
Ezequiel 47:1-12
Os versículos 1 a 12 do capítulo 47 de Ezequiel contêm um conteúdo incomensurável. Eles fornecem a mais clara descrição simbólica já feita sobre um rio espiritual. O rio, na visão de Ezequiel, sai do Templo e dá vida a terra desde Jerusalém até o mar Morto.
Em Apocalipse 22:1-4 também se apresenta um rio simbólico que flui desde o trono de Deus e do Cordeiro, ao mesmo tempo em que alimenta e sara todas as enfermidades:
Então, me mostrou o rio da água da vida, brilhante como cristal, que sai do trono de Deus e do Cordeiro. No meio da sua praça, de uma e outra margem do rio, está a árvore da vida, que produz doze frutos, dando o seu fruto de mês em mês, e as folhas da árvore são para a cura dos povos. Nunca mais haverá qualquer maldição. Nela, estará o trono de Deus e do Cordeiro. Os seus servos o servirão, contemplarão a sua face, e na sua fronte está o nome dele.
Ao profeta Ezequiel se mostrou como Deus proporcionaria abundantes bênçãos para o Seu povo. Essas bênçãos, representadas por um rio que flui do Templo, fertilizariam toda a terra, produzindo colheitas abundantes, curas milagrosas e, ao final, converteria o Mar Morto em um refúgio de água doce.
Para compreender esta passagem, é preciso recordar as tradições que sugerem que o Monte Sião, onde o Templo foi construído, escondia debaixo de si “uma fonte inesgotável de água e de fontes subterrâneas”. Todavia, por mais água que qualquer especialista possa afirmar que existe, não há maneira alguma de confirmar a visão de Ezequiel 47.1
O fato de que isto representa uma idealização das abundantes bênçãos de Deus é confirmada por algumas passagens bíblicas, tais como Salmo 46:4; 65:9; Isaías 33:20. As bênçãos, a fertilidade e a água são idéias quase sinônimas, no Antigo Testamento. Os comentaristas, no entanto, em busca de paralelos e antecedentes a este tipo de simbolismo, voltam-se à narrativa da criação em Gênesis 2. O antigo paraíso que se alimentava com águas do rio de quatro correntes (Gn 2:10) encontra o seu paralelo aqui na nova criação, que também tem um rio e árvores (v. 7). Se adicionarmos a isto o fato de que Ezequiel parece ter conhecido uma tradição de um paraíso ligado ao “santo monte de Deus” (Ez 28:14,16) assim como ao “jardim de Deus”, o paralelo à nossa passagem atual está quase completo.
O RIO QUE BROTA DO TEMPLO DE DEUS
Depois de levar Ezequiel em um tour pelas instalações que compõem a cozinha do Templo, o guia volta com uma vara de medir para levar o profeta em uma última turnê.
O capítulo 47 começa dizendo que o profeta Ezequiel foi levado do átrio exterior (46:21), onde estava, “de volta à entrada do templo” (v. 1); ou seja, à entrada principal que conduz ao templo propriamente dito. Para a sua surpresa, ele viu águas que fluíam debaixo da soleira do Templo e iam em direção ao leste (lado oriental). Esta era a direção em que ele olhava para o Templo. As águas vinham de baixo, do lado direito, e fluía em direção ao lado sul do altar.
Antes que Ezequiel tivesse tempo para se perguntar como é que nunca tinha visto, até então, aquela fonte de água, o seu guia o conduziu pela porta ao norte do Templo e o fez “dar uma volta pelo caminho exterior, fora da porta, pelo caminho que olha para o oriente” (v. 2), onde ele havia visto a glória de Deus se aproximando. Ele não conseguiria passar pela porta do leste, porque esta tinha sido fechada desde que Deus passou por ela (Ez 44:2). O profeta viu que um riacho saía do lado sul do portão: “as águas corriam ao lado direito” (v. 2). Certamente este não era um rio caudaloso nem poderoso.
É interessante comparar esta cena com outras imagens apocalípticas. Em Zacarias 14:8 se apresentam dois rios de águas vivas que sairão de Jerusalém e que correrão tanto para o oriente como para o ocidente. O profeta Joel falou de um rio que levava água ao “vale de Sitim” (Jl 3:18), que se localizava a leste do rio Jordão. Parece claro que estas imagens de um rio não têm como propósito serem compreendidas literalmente. Muito embora cada profeta tenha aplicado essa imagem à sua maneira, todos ressaltam uma verdade fundamental: Deus dá bênçãos para todos.
UM RIO DE ÁGUAS PROFUNDAS
O guia, então, levou Ezequiel ao largo do rio, medindo com um cordel à medida que avançavam (vs. 3-4). Media a cada quinhentos metros e cada medida mostrava que o rio se tornava cada vez mais profundo. Sua profundidade começou na altura dos tornozelos. Em seguida, aproximou-se de joelhos e chegou à altura da cintura. Finalmente, quinhentos metros depois, Ezequiel se deu conta de que o rio era profundo demais para ser atravessado, a não ser a nado (v. 5). Ezequiel e o seu guia, tomando uma sábia decisão, voltaram para a margem do rio (v. 6).
Este era um rio que crescia cada vez mais, mas que, no entanto, não era alimentado por outros córregos, nem por outras fontes de água, o que é contrário à natureza, onde a água de um córrego tende a ser absorvida pela terra. Este tipo de descrição certamente é simbólico. Isto ilustra a natureza ilimitada e crescente da ação de Deus na vida do seu povo.
A visão era tão poderosa e tão intrigante em seu escopo que Ezequiel não conseguiu compreendê-la. Ele não conseguiu sequer comentar o seu significado – só conseguiu reportá-la. Na verdade, antes de a visão acabar, o guia pergunta a Ezequiel: “Filho do homem, viste isso?”  (v. 6).
UM RIO DE ÁGUAS VIVIFICADORAS
O rio, que brota do templo de Deus, corre para oriente, desce para a região da Arabá – a região mais desolada e árida do país – e, daí, para o Mar Morto. Foi por isso que Ezequiel, quando finalmente voltou para a margem (v. 6), ficou bastante surpreso, pois viu que aquele rio tinha irrigado a terra árida, de tal maneira que, durante o tempo em que ele esteve no rio, ela pôde produzir muitas árvores, que estavam localizadas nos dois lados do rio (v. 7). O resultado era tremendo. Aonde as águas deste rio chegaram tudo o que outrora estava morto começou a reviver.
O guia explicou a Ezequiel que este rio de água doce que nasce no templo será canalizado para o Mar Morto, onde o fluxo de seu leito faria com que as águas mortas e malditas desse mar fossem curadas, convertendo-o em um lago de água doce (v. 8). Ainda, aquele rio daria a vida a todas as criaturas que entrassem em contato com suas águas. Os pescadores (v. 10) se beneficiariam ao pescar nas águas deste rio, porque haveria muitíssimos peixes (v. 9), tão rico em pescado como o Mar Mediterrâneo (v. 10). A água daquele rio teria um efeito vivificador, fecundando a aridez do deserto, tornando salubres as águas do Mar Morto e enchendo-as de vida.
Como se tinha o propósito de fornecer algum equilíbrio ecológico, Deus disse que os mangues e pântanos não seriam transformados pelas águas do rio que brotam do Templo (v. 11). Estes seriam reservados para a produção de sal.
ÁRVORES FRUTÍFERAS E CURADORAS
O guia, em seguida, voltou ao tema das árvores que estavam nas margens do rio. Diz-se no verso 12:
E perto do rio [que sai do átrio do Templo], em suas margens, dos dois lados, crescerá toda sorte de árvores frutíferas, cujas folhas não murcharão e cujos frutos não se esgotarão. Produzirão novos frutos a cada mês, pois suas águas saem do santuário; seus frutos servirão de alimento e suas folhas de remédio.
Estas árvores, que cresciam em abundância de ambos os lados do rio, tinham algumas qualidades interessantes:
1) Eles podiam produzir todos os tipos de frutas;
2) Suas folhas nunca cairiam (veja a descrição do homem abençoado no Salmo 1) e poderiam ser usadas como remédios medicinais;
3) Não faltaria o seu fruto. Dariam frutos todos os meses, proporcionando uma fonte de alimentação contínua.
Por que estas árvores poderiam realizar tais proezas? Porque elas estavam em contato com as águas que vieram do santuário.
Este quadro de água abundante, que faz brotar árvores de fruto de toda a espécie, dotadas de frutos de toda a espécie e de folhas medicinais (v. 12), retoma a imagem paradisíaca do Jardim do Éden, local de água e de árvores de fruto, onde o homem – vivendo em comunhão com Deus e obedecendo às suas propostas – tinha todas as condições para ser feliz (cf. Gn 2:9-14).
CUMPRIMENTO DA VISÃO PROFÉTICA
Seria esta uma visão literal ou simbólica? Muito embora alguns comentaristas dispensacionalistas vejam aqui uma descrição da nação de Israel durante o reinado milenar de Cristo na terra,
Em primeiro lugar, deve ter algum significado o fato de que esta visão do rio que sara e vivifica venha um pouco antes da narrativa acerca dos limites e divisões da terra.
Antes que o povo voltasse e fosse reinstalado ali, era necessário curar e purificar a própria terra de tudo o que tinha sido contaminada. Por causa do pecado de Israel e o consequente juízo divino, que significou o exílio de Israel, a terra tornou-se uma maldição de morte. Agora voltaria a converter-se em um lugar de vida e de bênção, de abundância e saúde, que deveria ter sido desde o início. Aqui há alguns ecos do que já vimos anteriormente, em especial no capítulo 36 de Ezequiel, que refletiram as bênçãos e as maldições da aliança em Levítico 26. Em sua promessa de restauração, depois do juízo, Deus havia dito: “Então, me lembrarei da minha aliança com Jacó, e também da minha aliança com Isaque, e também da minha aliança com Abraão, e da terra me lembrarei”  (Lv 26:42).
A promessa profética de um manancial de águas que fertiliza e dá vida, e que brotará do templo, simboliza a inesgotável plenitude de vida que Deus comunicará a seu povo. Aos exilados o profeta anuncia, portanto, a chegada de um tempo em que Deus vai voltar a residir no meio do Seu povo e vai derramar, sobre os Seus eleitos, vida em abundância. A ação salvadora de Deus em favor do Seu povo irá possibilitar que a desolação e a morte do presente se transformem, no futuro, em vida e felicidade sem fim.
Em um nível histórico esta visão apontava para o futuro retorno de Israel à sua terra, a renovação espiritual e a retomada das funções normais de irrigação, adubação, aração, semeadura e colheita. Seria uma vez mais o povo de Deus na terra de Deus. No entanto, num nível mais profundo, a Bíblia sempre conecta a humanidade com a terra – uma afeta a outra. Por causa do pecado humano, a terra está sujeita à maldição. A redenção da terra produzirá o efeito inverso, vai retirar a maldição e toda a criação será restaurada para a qualidade de vida que Deus planejou no início.
Embora caída e sofrendo os efeitos da queda na natureza, a terra aguarda o dia da redenção e geme na expectativa de ser restabelecido das consequências do pecado humano (Rm 8:20-22). No fim, todavia, a verdadeira beleza da terra será restaurada e, uma vez destruído todo o mal e uma vez manifestados os filhos de Deus, a criação inteira “… será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rm 8:21). Então é que Deus será “tudo em todos” (1 Co 15:28); ou, conforme esse versículo tem sido traduzido em algumas versões bíblicas: “Deus estará presente de maneira total no universo”.5
Em segundo lugar, o fato mais significativo sobre o rio é a sua fonte, a sua origem. Ele vem diretamente da presença do próprio Deus. Por isso, é capaz de dar vida e sustento, porque essas coisas são dons do Deus vivo tal qual na visão do vale de ossos secos. Quando combinado com as imagens anteriores, o efeito é ainda maior. Como já mencionado, o fato de que a porta oriental estava fechada dizia respeito ao regresso definitivo de Deus para seu templo (Ez 43:1-5). Deus não marcharia para trás para refazer seus passos e sair pela porta do leste. Mas isso não significa que Ele estava trancado no santuário. O rio que levava a Sua bênção vivificadora fluía agora debaixo do templo na mesma direção em toda a terra da promessa. Assim como o sopro de Deus tinha vindo dos “quatro ventos”, para soprar o fôlego de vida sobre aquele exército de mortos (Ez 37:9,10), assim também flui agora o rio de Deus que sai do santuário (v. 12), para regar e encher de vida uma terra e um mar que estavam mortos.
Enumero cinco implicações teológicas notórias sobre esse rio que flui do Templo de Deus. Ele declara o seguinte:
Em primeiro lugar, a restauração da relação entre Deus e Seu povo é um pré-requisito para a renovação do meio ambiente. A corrente de água que flui a partir do altar, para renovar a terra, simboliza o desejo de Deus de receber uma humanidade sem pecado e também mostra o seu prazer na adoração que se lhe rendem.
Em segundo lugar, a renovação do meio ambiente representa uma renovação espiritual, porque vai de mãos dadas com a remoção da maldição que está sobre a terra desde a queda. Em Apocalipse 22:3 se declara a remoção da maldição.
Em terceiro lugar, toda renovação física e espiritual provém do milagre da graça de Deus e se origina na casa de Deus.
Em quarto lugar, a preocupação de Deus com Sua santidade tem como paralelo o seu desejo de abençoar o Seu povo. O bem-estar da terra reflete a preocupação de Deus ao permitir que a torrente de água flua através da terra deserta.
Finalmente, em quinto lugar, a vida abundante está disponível a todo aquele que em espírito e verdade adorar ao Senhor. Rios de água viva fluirão na vida de todos os que creem (Jo 7:38). As palavras de Ezequiel tem seu paralelo com as palavras de Zacarias 14:8, que descreve a água que flui a partir de Jerusalém, e com as palavras de Joel 3:18, que descreve montanhas e colinas que manam vinho e leite, dizendo, ainda, que da casa do Senhor sairá uma fonte que regará o vale de Sitim. E, Isaías 12:3 anuncia: “Vós, com alegria, tirareis água das fontes da salvação”.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
No final da profecia de Ezequiel, o homem de Deus informa da visão que teve de uma corrente de água que sai do santuário do altar e que fluía de debaixo da casa e ia para o leste, aumentando à medida que avançava, mas sem ser alimentada por riachos, derramando suas águas curadoras no Mar Morto, e transformando todo o campo, por onde passou, em terra fértil.
Convidado por seu guia celestial, para caminhar com ele junto ao rio, o profeta Ezequiel encontrou, no início, uma profundidade de água que atingia seus tornozelos, mas a certa distância, ela atingiu os joelhos e mais adiante as águas atingiram a sua cintura. Por fim, em certa parte do rio, ele observou que teria que nadar. Que maravilhosa alegoria de experiência com Deus! O fluxo de bênção começa no altar do Senhor, o lugar de sacrifício, onde Cristo carregou os nossos pecados sobre si, e aquele rio, ao crescer com o crescimento que vem do próprio Deus, à medida que o Espírito Santo multiplica sua plenitude, torna-se um rio profundo que flui do trono do Senhor, enchendo toda a terra e que ninguém jamais pode sondar.
Deus prometeu que restaurará o Seu povo na terra que Ele mesmo havia prometido a Abrão (Gn 12:7; Ez 36) e que nada será capaz de arrebatá-la (Ez 37 a 39). Portanto, a visão de Ezequiel 47 é sobre a restauração do povo de Israel, da restauração da terra dividida entre todas as tribos, restauração essa que se dá com o rio de águas vivificadoras que, saindo debaixo do templo, leva vida por onde quer que vá, transformando Israel em um jardim paradisíaco.
Jesus se refere a si mesmo como a água doadora de vida (Jo 4:10-14). João declara que Jesus é a fonte de rios de água viva. Por onde Ele passa na vida de quem Ele manifesta a sua graça ali há vida. O que crê em Jesus tem vida e vida em abundância. Louvado seja Deus por nos permitir experimentar dessa água viva e de sua ação restauradora...
Apóstolo. Capelão/Juiz. Mestre e Doutor em Ciência da Religião Dr. Edson Cavalcante.


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